O peso da autoridade
Público 2012-02-05 Vasco Pulido Valente
Indo por ordem, convém lembrar que Portugal nunca esteve, como se costuma dizer em prosa patriótica, "sob o domínio de Castela" ou, se preferirem, "sob o domínio de Espanha". O arranjo de 1580 não passou de uma "união pessoal" da coroa portuguesa com a coroa de Castela (ou de Espanha) na pessoa de Filipe II, que era o herdeiro legítimo das duas. Como se vê nada que nos separasse na Europa do Império Austríaco ou do Reino Unido da Inglaterra, Escócia e Gales. De resto, a ordem jurídica portuguesa não mudou, nem a organização da Igreja, nem a defesa do Império, nem a carga fiscal que anteriormente se pagava. Só quando o conde-duque de Olivares nos pediu mais dinheiro e um pequeno contingente de soldados para a guerra europeia, o espírito patriótico da nobreza indígena finalmente acordou e resolveu instalar D. João IV num trono contestável e periclitante. O "1º de Dezembro" comemora a ascensão da dinastia de Bragança e não uma putativa independência que não deixara de existir.
Quanto à mudança da Monarquia Liberal para a República jacobina - excepto pela separação do Estado e da Igreja (uma cópia do radicalismo francês) -, não trouxe a Portugal o menor benefício e acabou em pouco tempo por lhe trazer Salazar. Grupos terroristas dominavam a rua, em Lisboa e em grande parte da província. A liberdade de imprensa ficou à mercê da tolerância do governo. E também, com frequência, a vida e a liberdade do cidadão comum. No célebre discurso de Santarém, Afonso Costa declarou que, fora do Partido Democrático, não existiam mais do que "traidores". Princípio que desde 1913 se aplicou rigorosamente pela astúcia ou pela pura força. Não se percebe muito bem como este exemplo contribui para que a "comunidade" nacional não se desagregue e para que a "economia sobreviva". Mas, perante a autoridade de 80 historiadores, é evidente que o país se deve curvar.
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