A mais curta refeição oficial da vida dele

Leonídio Paulo Ferreira
DN 2016.04.02

Há um pormenor na biografia de Hans-Dietrich Genscher que por vezes passa despercebido: nasceu na metade oriental da Alemanha e chegou a conhecer o comunismo. Assim, que a reunificação fosse o projeto de uma vida não é coincidência. E pode-se tentar imaginar o que sentiu quando, ministro dos Negócios Estrangeiros, soube da queda do Muro de Berlim. Numa entrevista 25 anos depois à Deutsche Welle, contou que estava num jantar em Varsóvia, já com o novo governo polaco do Solidariedade, quando o informaram. "Foi a refeição oficial mais curta da minha vida", notou, acrescentando que ele e o chanceler Helmut Kohl só queriam chegar a Berlim. Já se sabia que a história estava a mexer, só não se sabia que a um ritmo tão acelerado que, daquele 9 de novembro de 1989, resultaria, menos de um ano depois, a reunificação alemã.
Foi uma época inspiradora. A Europa estava prestes a deixar de estar dividida e o mérito era de uns poucos líderes, o soviético Mikhail Gorbachev de certeza, mas os alemães Genscher e Kohl também, e por esta ordem. É que se o segundo era o chanceler, líder dos democratas-cristãos, Genscher estava no governo desde 1969, e com a pasta da Diplomacia desde 1974. Trabalhara com os sociais-democratas Willy Brandt e Helmut Schmidt até que em 1982 achou que os liberais deviam mudar de parceiro. Assim, no currículo de Genscher, quando chega a hora H, estava já a Ostpolitik, o acordo com a Polónia para o reconhecimento da linha Oder-Neisse e ainda a Conferência de Helsínquia que em 1975 trouxe um primeiro degelo entre americanos e soviéticos.
Genscher é dos primeiros a perceber que Gorbachev quer mesmo mudar a União Soviética. Nisso os alemães antecipam--se aos americanos, mesmo que depois a relação entre Ronald Reagan e o líder soviético seja decisiva para o fim da Guerra Fria.
Entre 1985 e 1989, as mudanças são mínimas, mas significativas. Depois, notam-se fraturas no Bloco Comunista, a mais relevante a ser o sucesso da luta de Lech Walesa na Polónia, mas também notáveis na Hungria, que abre a fronteira com a Áustria, e na Checoslováquia. Foi em Praga, aliás, a 30 de setembro, que Genscher terá um grande momento, quando da varanda da embaixada da RFA diz aos milhares de alemães de Leste lá refugiados que são livres de viajar.
Há pontos menos brilhantes na biografia de Genscher, que ontem morreu com 89 anos, como o fracasso, enquanto ministro do Interior, da operação de libertação dos reféns israelitas durante os Jogos Olímpicos de Munique. E também lhe é criticado o reconhecimento precipitado da Croácia e da Eslovénia, prenúncio da guerra na Jugoslávia. Mas o balanço tem de ser elogioso: viu a ascensão no nazismo, adolescente foi chamado a combater quando a derrota era já inevitável, assistiu à divisão do país no fim da II Guerra Mundial e, quando trocou a RDA pela RFA, fez da razão de estar na política a unidade que chegaria em 1990, dois anos antes de se retirar.
Foi uma fantástica reunificação, tão brilhante como a unificação de 1871, basta olhar hoje para a pujança de Berlim. Diz-se que na época a britânica Margaret Thatcher preferia manter duas Alemanhas e hoje há quem aponte todos os males da União Europeia a uma Alemanha unida, mas é errado. E se os estados alemães de Leste ainda são mais pobres, o esforço de atenuar diferenças foi tal que é estudado por uma Coreia que também sonha a reunificação. E a chanceler Angela Merkel vem da ex-RDA.
No auge do processo que levaria à reunificação e à retirada das tropas soviéticas, Genscher visitou a sua Halle natal com o soviético Eduard Shevardnadze e apontando para uma velha casa disse com orgulho: "Foi aqui que nasci." Em épocas extraordinárias, homens extraordinários fazem diplomacia extraordinária.
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