Cavaco não foi tão mau

Paulo Baldaia
DN 20160309

Num país de memórias curtas, a última imagem é muito poderosa. Cavaco Silva vai precisar que o tempo jogue a seu favor e que muitas das histórias que ainda estão mal contadas sejam contadas com todos os factos. Não julguemos nós, comentadores, que a realidade está errada, o Presidente que termina os seus mandatos com os mais baixos índices de popularidade é o político de maior sucesso na democracia portuguesa.
A opinião publicada é muitas vezes bipolar. O que serve para apresentar como um ganho do país na utilização dos fundos comunitários, a construção das infra-estruturas ao melhor nível europeu, também serve para criticar Cavaco Silva, apelidado de construtor de auto-estradas. A agricultura, que tem hoje níveis de produtividade europeus e que deixou para trás a lógica de subsistência, também serve para acusar o ex-primeiro-ministro de a ter destruído. O mar, que é hoje uma paixão de Cavaco, também é apresentado como vítima do ex-chefe de governo, mas o mar deixou de ser o território onde trabalhavam milhares de pescadores que viviam sempre no limiar da pobreza.
Cavaco não é uma pessoa fácil, a timidez que se confunde com a antipatia, a altivez que lhe dificulta a audição de quem o critica, a teimosia que nele parece arrogância, dificultam o destaque que é preciso fazer pelo facto de ter sido Cavaco quem mais fez pela liberdade informativa em Portugal. Foi com Cavaco que jornais como o DN e o JN, que estavam nas mãos do Estado e das corporações, puderam ser privatizados. Foi com Cavaco que se legalizaram as rádios-piratas e foi com Cavaco que nasceram as televisões privadas.
Nem tudo foram rosas. A questão do investimento no BPN e respectivos ganhos, a frase sobre a dificuldade como ele e a mulher viviam com as suas reformas, num país que penava a sério, e a forma como lidou com a crise política que se seguiu às eleições não são matérias que o tempo apague. Revelam que o político que mais contribuiu para o desenvolvimento do país não soube acompanhar e perceber o tempo em que vivemos. Gerações inteiras que não se revêem nos políticos viveram os últimos anos a ver Cavaco dar tiros nos pés.
Pela memória recente, que ajuda a criar a imagem com que ficamos do político que teve mais de 20 anos no poder, convém recordar que em 2013 Portugal podia ter-se afundado verdadeiramente. Foi o Presidente que evitou o desastre, procurando um consenso alargado ao PS que, tendo falhado, serviu para fortalecer a única coligação que terminou uma legislatura. Não foi a melhor maneira de terminar uma carreira política, mas Cavaco Silva é muito mais do que um chefe de facção. O país mudou muito nos últimos 30 anos e ele foi um elemento central dessa mudança. Para o bem e para o mal. Acabou.
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