Já não se pode dizer “Boa!”

Lucy Pepper
Observador 3/1/2016

Com as suas piadas, taxistas e empregados de café estão a limitar o uso da língua portuguesa. Já não se pode usar o condicional num pedido. Agora, é a vez da exclamação "boa!" desaparecer.
Há uns dias, apanhei um táxi e quando chegámos ao destino, um sítio onde era difícil parar, o taxista mostrou a sua perícia e conseguiu deixar-me quase em frente da porta. “Boa!”, exclamei, mas já não tive tempo de dizer “obrigada”.
“Ah!”, interrompeu-me o taxista, “já não se pode dizer BOA… AHAHAHAH!”
Olhei para ele durante um momento, sem perceber nada, até me lembrar que aquele era o dia em que a lei do piropo entrava em vigor.
“Ah, sim, pois… “, respondi, sem demasiado entusiasmo “…suponho que já não podemos…pois …”
Como é costume em Portugal quando alguém conta uma piada, ele teve de a repetir, e ficar a rir-se por mim, enquanto eu tentava pagar-lhe a corrida, receber o troco e continuar com a minha vida (um dia, alguém me há-de explicar a razão por que anedotas e punchlines em Portugal precisam sempre de ser repetidas…).
Depois de sair do táxi, perguntei-me o que seria o assunto de conversa nos cafés de taxistas nessa manhã. Talvez não estivessem a planear a queda da língua portuguesa, mas de uma certa e pequena maneira, é o que vai acontecer.
Mas antes disso, deixem-me dizer qualquer coisa sobre a lei do piropo. É uma coisa bastante ridícula por muitas razões, mas principalmente porque 1) não vai funcionar e 2) vai ser facilmente abusada por pessoas vingativas. Mas como esse é o caso com muitas leis — 1) não impedem as pessoas de as infringirem e 2) há sempre alguém suficientemente vingativo para abusar delas — vamos ver como funcionar esta nova lei. Talvez eu esteja errada. Talvez a lei do piropo vá fazer chegar uma nova era de respeito pelas mulheres (mas não vai).
Mas voltemos à questão da língua. Este episódio da “BOA!”, que sei ir-se repetir, quer dizer que não vou poder voltar a dizer “boa”, pelo menos num táxi. Não porque seja errado dizer “boa” (a não ser que me esteja a dirigir a uma taxista, e eu tenha mudado de sexualidade de um dia para outro e me torne no tipo de pessoa que manda piropos às mulheres), mas porque taxistas, empregados de tascas e espertalhões vão repetir por todo o lado essa piadola do “já não se pode dizer boa… hahahahah”, e nós teremos mesmo de deixar de dizer “boa” ou outras palavras que noutras circunstâncias possam ser utilizadas para piropar, porque nos faltará a paciência para lidar com essas piadolas sem piada. Uma das coisas mais cansativas na vida é ter de rir de uma piadola sem piada.
Vai acontecer, como já aconteceu noutros casos, a começar pelo uso do condicional para pedir qualquer coisa numa loja ou num restaurante.
Quantas vezes, quando educadamente dizia “se faz favor, eu queria um pastel de nata”, me apareceu um empregado espertalhão a dizer “você QUERIA, mas já não QUER?… HAHAHAH”. Um dia, quase deixei de usar o condicional em cafés e restaurantes, simplesmente porque já não tinha pachorra para 1) rir-me de uma piadola que não tem piada, 2) corrigir o cavalheiro e 3) no meu caso, ou antes, no caso de estrangeiros, de repente sentir-me insegura acerca do meu domínio da língua, apenas porque um tuga está a armar-se em espertinho embora eu saiba que tenho razão.
O condicional é uma boa almofada linguística. Não é só um tique português, acontece em outras línguas. “Eu queria/gostava de…”, “I would like…”, “je voudrais…”, “ich möchte…” – servem para suavizar o pedido de alguma coisa quando nos dirigimos a alguém, evitando soarmos como um patrão malcriado ou um grande bebé zangado a exigir “EU QUERO UM PASTEL DE NATA!”
Resisti, e continuo a utilizar o condicional.
E vou continuar dizer BOA, excepto em táxis.
Ora bem, tenham um ano cheio de coisas BOAS.
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