O contrário da alegria não é a tristeza

P. Miguel Almeida, sj
Observador 3/4/2016, 9:06

A ressurreição diz-nos que mesmo as perdas, as dores, os vazios e a própria morte não têm a última palavra. A última palavra é sempre de vida. Portanto, nenhuma tristeza nos pode roubar a alegria.

Queria escrever sobre a alegria. Mais especificamente aquela alegria da ressurreição que celebramos na Páscoa. Mas, assaltado pelas notícias, umas atrás das outras, desde o assassínio bárbaro das Missionárias da Caridade no Iémen ao atentado do Paquistão que visou especialmente mulheres e crianças, dos atentados de Bruxelas ao acidente na estrada da morte que matou os emigrantes portugueses… Como falar da alegria da ressurreição?
Conta-nos o evangelho de S. João que, no primeiro dia da semana, ainda escuro, Maria de Magdala foi ao sepulcro e encontrou-o vazio. Depois de chamar Pedro e João e de estes terem ido também ao túmulo e voltado para casa, Maria, prostrada à entrada do sepulcro, chora. Porque choras? Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram, diz ela.
Esta é a experiência profunda de quem sofre. Levaram o meu Senhor. Roubaram-me aquele que eu amava, levaram-me a minha família, tiraram-me anos de vida, roubaram-me o sentido para continuar a viver. É a experiência do vazio profundo. De algum modo, mais tarde ou mais cedo, todos fazemos a experiência da nossa própria finitude. De um sonho não vivido, de uma vida ou relação desmoronada, da dor, da perda, da morte, do vazio, do sem-sentido. Na existência humana, o sofrimento é incontornável. Quando dizemos sofrimento, todos sabemos do que falamos, embora cada um o diga num tom distinto porque o vive de uma forma única e irrepetível. Como falar da alegria da ressurreição no meio de tanta dor?
De facto, muitos consideram-nos a nós, cristãos, uns coitadinhos alienados da vida real quotidiana, que procuramos algures no além as respostas que não encontramos no aquém. Nada mais falacioso. A vida de Jesus Cristo mostra-o claramente. Ele não abdicou de viver a vida bem real que lhe foi dada viver. A ressurreição não exclui a dureza da vida, mas abarca-a e supera-a pelo sentido profundo da existência. Por isso, sim, faz sentido, é obrigatório, falar da alegria da ressurreição.
Porque esta não é a alegria da gargalhada. Não se confunde com o cool “está tudo bem” ou “tudo há de correr bem”. Não. Há coisas que correm mal. A vida de Jesus correu-lhe mal. Acabou numa cruz. E aqui está também uma força da sua vida: superou o sofrimento, não fugindo dele, mas atravessando-o. Claro que o sofrimento é mau e se deve evitar. Deus não quer o sofrimento, mas o amor. Contudo, é possível amar sem sofrer? Inevitavelmente, se fujo do sofrimento a qualquer preço, acabo por fugir também do amor.
Jesus Ressuscitado, aquele que amou os seus até ao extremo da cruz, na manhã de Páscoa, desconcertante, faz-se confundir com o jardineiro. Porque choras? A quem procuras? Dificilmente ouviremos perguntas mais profundas e inquietantes. O que te falta para que a tua vida seja verdadeiramente alegre? E a quem procuras realmente? A ti mesmo? Procuras alguém que te diga o que queres ouvir ou te mostre o que queres ver? Ou buscas Aquele que é a Verdade?
Todos ansiamos pela alegria de vida. Mas evitamos responder com frontalidade a estas questões. Escavando ao encontro de possíveis respostas deparamo-nos com o verdadeiro contrário da alegria: o medo. Este sim, é a fonte do maligno em nós. Faz-nos desconfiar de tudo e de todos, bloqueia-nos nas decisões e paralisa as nossas ações. O medo de não sermos amados é o verdadeiro ladrão da alegria. Por medo deixamos de dizer o que pensamos ou fazer o que devemos, preferimos habitar o suficiente mesquinho do quotidiano a arriscar um horizonte incerto mas aberto a um futuro eterno.
Não. O contrário da alegria não é a tristeza. É perfeitamente possível que esta alegria de fundo coabite em nós com as tristezas que a vida nos traz. Porque a alegria vem-nos da descoberta de que a vida tem um sentido. A ressurreição diz-nos que mesmo as perdas, as dores, os vazios e a própria morte (medo mais ancestral?) não têm a última palavra. A última palavra é sempre uma palavra de vida. Portanto, nenhuma tristeza, por mais crua que seja, nos pode roubar a alegria.
O desafio é viver desde já como ressuscitados. Descobrir a vida escondida por detrás de cada dor. Enfrentar e destruir o medo que surge em cada possibilidade desconhecida. Só assim é possível enfrentar todos os terrorismos, só assim podemos assumir compromissos para a vida, só assim conseguimos encarar as mortes do dia-a-dia. Quem habita o mundo deste modo, morre com aquele sorriso de quem vive em paz porque sabe que a morte é sempre penúltima.
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