domingo, 3 de abril de 2016

Integração e multiculturalismo

António Barreto
DN 20160403

Não é aconselhável confundir refugiado com imigrante, mas a verdade é que não se tem feito outra coisa. Só na Europa, o número de candidatos a refugiado é tal que quase estamos a falar de vagas de imigração. Como sempre, a difícil questão continua a ser: qual a política de acolhimento de imigrantes?
Há duas maneiras de organizar a recepção de imigrantes. Uma tem a designação genérica de integração. A outra de multiculturalismo. Sem contar os compromissos e as variedades possíveis, são estas as duas políticas essenciais.
Pela integração, são feitos esforços para assimilar e incluir os imigrantes nas sociedades onde vivem. São-lhes facultadas as condições necessárias à aprendizagem da língua, ao acatamento das leis vigentes, ao respeito pelos costumes, ao benefício dos direitos existentes e ao cumprimento dos deveres cívicos. Haverá certamente áreas de privacidade, incluindo religiosas, que os imigrantes poderão preservar, desde que não sejam incompatíveis, publicamente, com a ordem existente. Numa sociedade integrada, tendencialmente toda a gente vive com toda a gente, não há bairros segregados nem guetos. As escolas são frequentadas por todos. O mesmo se aplica aos hospitais, aos tribunais e aos espaços públicos. Na Europa, os imigrantes têm o dever de respeitar o ethos cívico e democrático que caracteriza actualmente as sociedades deste continente. Estou convencido de que a integração é, para a liberdade individual e a democracia, mas também para o bem-estar dos imigrantes, uma política superior e vantajosa!
Pelo multiculturalismo, tudo é feito, nas sociedades de acolhimento, para que os imigrantes possam manter e cultivar as suas tradições, regras de vida e valores, tanto privados como públicos. Numa sociedade multicultural, os bairros dividem-se, planeada ou espontaneamente, por etnias, as escolas são diferentes para cada grupo, podendo as instituições ter regras diferenciadas. A segregação pode ver-se no urbanismo, na economia doméstica e no emprego. Pode ser reflexo de autodefesa dos grupos minoritários ou da recusa da integração. As burcas e os niqab, a poligamia, a excisão das mulheres, a venda de crianças, as várias formas de escravatura, a proibição de bebidas alcoólicas, a interdição de conduzir automóveis, os casamentos contratados de crianças, as regras do poder conjugal, paternal e marital, assim como do poder político do sacerdote, são alguns dos exemplos de tradições que fazem parte das culturas não ocidentais. Creio que a fragmentação social, para não dizer apartheid, levada a cabo pelo multiculturalismo pode destruir os sistemas democráticos.
As questões de integração e do multiculturalismo têm sido abordadas a propósito dos atentados terroristas islâmicos. Não tem faltado quem os procure justificar com as famosas condições sociais. E com os traumas históricos. Ora, são cada vez mais débeis os argumentos que defendem haver uma relação entre imigração e terrorismo. Há hoje dezenas de milhões de imigrantes estabelecidos em comunidades onde não há qualquer terrorismo. Os europeus têm dificuldade em tratar destes problemas com clareza. Deixam-se atrair pela demagogia com facilidade. Sentem culpas históricas próprias do pesado "fardo do homem branco". Querem hoje redimir-se das suas culpas reais e fantasmagóricas do passado. Querem refazer a história. Foram incapazes de compreender os refugiados e repatriados brancos de África e de outras paragens. Classificaram de retornadas pessoas que nunca tinham visto, nascido ou vivido nas metrópoles... Para os europeus com mal da história, um branco rodesiano ou moçambicano não vale um muçulmano francês ou belga. Pobres europeus que assim desistem e assim se culpam!
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