O sono americano

JOÃO TABORDA DA GAMA | DN 2015.07.09

Não traga armas, foi a única coisa que me pediram quando há uns meses fui ao congresso falar com um congressista. E assim foi. Revistado, a AK-47 no cofre do hotel, é andar por ali à vontade. Uma mistura de liberdade e transparência, assumindo os riscos de uma e de outra, são os Estados Unidos. Nos corredores, os Doug Stampers e os Remy Dantons, miúdos da escola, congressistas, staffers. Muitos vêm visitar o seu representante, pedir, cumprimentar, chatear, tirar fotos. Há mais naqueles corredores do que em muitos manuais de Ciência Política. Um ambiente pouco europeu, pelo menos pouco português.
Desse lado do Atlântico, nos últimos tempos, vem uma progressiva aproximação ao acervo civilizacional europeu. Do Obamacare à recente decisão sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, do início de uma discussão sobre o fim da pena de morte (com a tomada de posição expressa de dois juízes do Supreme Court, Breyer e Ginsburg, no mês passado) ao fortalecimento da posição daqueles que defendem o maior controlo das armas - os Estados Unidos vão perdendo os seus paradoxos.
Mas a aproximação não se fica pelas grandes causas. Enquanto a televisão dá horas infinitas de taxistas em Atenas, negoceia-se o maior acordo comercial do mundo, o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento entre a União Europeia e os Estados Unidos da América. A sobreocupação do espaço público por temas europeus tem uma razão de ser natural: é na Europa que está uma parte importante das decisões sobre Portugal, como o Real Madrid é mais importante em Lisboa do que os New York Cosmos. E o futuro da Atenas, saber se e como e quando ela se salva, é também o futuro de Lisboa, e de Madrid. Mas é um futuro que neste momento depende mais do que façam os políticos de lá do que os de cá.
A sobre-europeização do debate, da conversa, do comentário, do rodapé da TV no café, reduz o tempo e o espaço disponível para nos concentrarmos no outro lado do Atlântico Norte, onde está um futuro, esse sim, que depende só de nós. Este ano obtivemos um excedente comercial de mil milhões de euros com os Estados Unidos, num ano em que mercados para onde nos virámos recentemente abrandam: a bolsa chinesa perdeu três triliões de dólares no último mês e ontem o governo angolano anunciou que as receitas diminuíram 85% em relação ao período homólogo. Três triliões; 85%.
Convém não adormecer sobre a oportunidade que são e vão ser os Estados Unidos, sem preconceitos, com a determinação necessária de entrada num mercado maduro, aberto e sustentável. Aliás, um mercado com uma forte proximidade cultural e política a Portugal, de que são exemplo os dezanove congressistas que compõem o Portuguese American Caucus, cada vez mais poderosos - compare-se com o poder dos lusodescendentes no Bundestag... Se Portugal quer ser um país de empreendedores - seja isso o que for -, e para usar linguagem de empreendedor, não pode fazer o seu benchmarking com países como França ou Itália nem se limitar a copiar políticas económicas de estagnação.
Algumas horas das horas perdidas a mostrar mansões no Restelo a compradores de Golden Visa eram mais bem investidas à procura de angel investors em Seattle. Mas para isso era preciso que os nossos empreendedores largassem os QREN.
Talvez haja no que disse alguma bimbice e deslumbramento com o liberalismo dos gringos. Mas, por acaso, é o presidente desses capitalistas selvagens que, em nome da polis e da política, veio defender uma Grécia no euro, e o perdão de dívida que vem com isso (comes with it, no original).
Um dia, o jornalista José Júdice disse, ou escreveu, que entre Lisboa e o Porto preferia Sevilha. Entre Bruxelas e Berlim, talvez devêssemos olhar mais para Washington.

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