A metamorfose de Tsipras
FRANCISCO ASSIS Público 09/07/2015
Depois de plebiscitado, Tsipras talvez se tenha reinventado. Claro que deixará órfãos, viúvas e muitos espíritos desalentados mas poderá contribuir para a reorientação em curso das prioridades europeias.
1. A acreditar nos últimos rumores provenientes de Atenas, Alexis Tsipras estará prestes a aderir àquilo que os seus fanáticos apoiantes lusos tanto vituperam: o compromisso europeu.
A ser verdade isso constituirá uma boa notícia para a Grécia e para a Europa e consolidará a teoria da impraticabilidade da via da exacerbação como método de resolução dos conflitos existentes no interior do espaço político europeu. Aquilo que se podia designar como a “ideologia Syriza” assentava no elogio do antagonismo e na exaltação do confronto como forma de transformação do projecto europeu. Na verdade, essa esquerda de origem predominantemente académica que se tem disseminado por vários países do Sul europeu não surgiu na vida pública com a simples intenção de reformular parcialmente o modelo político e económico característico da UE em obediência a uma visão gradualista própria da tradição social-democrata. O seu propósito era originalmente muito mais vasto, tendo como horizonte a superação da ordem prevalecente identificada com a democracia representativa, a supremacia da economia de mercado e uma visão não apocalíptica do fenómeno da globalização. Com esse intuito conceberam uma nova linguagem de cariz pós-marxista com recurso a conceitos oriundos da velha retórica populista. Nisso se distinguiram das formações comunistas tradicionais.
No caso grego, o de maior sucesso até ao presente momento, essa esquerda mais radical beneficiou do grau de degradação institucional, económico e social atingido. Nos últimos cinco meses, Tsipras conseguiu aguentar-se num equilíbrio instável e precário entre dois discursos claramente distintos, um para a opinião pública interna e outro destinado aos seus congéneres europeus. Para tornar a coisa mais apelativa fez-se acompanhar da exótica figura de um ministro das Finanças dotado da capacidade encantatória que sempre assiste aos cultores profissionais da iconoclastia com pretensões aristocráticas. Varoufakis desempenhou o papel com extraordinária mestria. Para isso tanto contribuiu a sua inteligência como a sua potente moto, os seus conhecimentos de economia como a sua propensão aforística. É certo que o fez exasperando os seus austeros colegas do Eurogrupo, que ao olharem para aquela inesperada figura entravam provavelmente em estado de pura confusão mental. Varoufakis foi muito útil até ao dia em que Tsipras percebeu que poderia ter uma vida para além do esquerdismo extremista da sua juventude. De certa forma, o sacrifício do ministro das Finanças significa o renascimento do primeiro-ministro grego.
Olhando retrospectivamente para os vertiginosos acontecimentos das duas últimas semanas somos levados a concluir que Tsipras soube realizar com imaginação e talento a sua própria metamorfose. Senão vejamos: depois de ter conduzido a Grécia para a proximidade do abismo sem que internamente lhe fosse imputada essa responsabilidade, decidiu precipitar uma ruptura negocial e convocar um referendo original. Contrariamente ao que levianamente proclamaram as boas almas de sempre, tal referendo nunca poderia ter como intuito a ampliação da capacidade reivindicativa do Estado grego perante os seus parceiros europeus mas antes e apenas o reforço da autoridade do próprio Tsipras no seu país. Foi, sem sombra de dúvida, um referendo plebiscitário. Mais do que um momento de celebração da democracia foi um instante de afirmação de uma verdadeira liderança carismática. Só assim se justifica que, poucas horas decorridas, Varoufakis tenha levado sumiço, as linhas vermelhas se tenham apagado e a retórica exaltada tenha dado lugar ao discurso comedido.
O Alexis Tsipras que ontem se apresentou perante o Parlamento Europeu, ainda que tenha sido aclamado à entrada por um corso de entusiastas que se empurravam na aspiração de o tocar, revelou uma disponibilidade para o diálogo em tudo contrastante com o tom praticado na semana anterior. Fê-lo com tal elegância que a acusação de capitulação poderia ser entendida como uma ofensa desnecessária. Afinal de contas ainda há regras cavalheirescas que convém não subestimar. O primeiro-ministro grego, nas suas intervenções algo vagas, disse algumas coisas com interesse que merecem ser salientadas: realçou a importância da dimensão europeia na resolução da presente crise, valorizou a componente política em detrimento de uma abordagem pretensamente técnica e sublinhou as insuficiências da terapêutica austeritária. Teve a sensatez de não recorrer às estafadas tiradas anti-germânicas e insinuou uma vontade reformista. Em suma, depois de plebiscitado, Tsipras talvez se tenha reinventado. Claro que deixará órfãos, viúvas e muitos espíritos desalentados mas poderá contribuir para a reorientação em curso das prioridades europeias. Aliás, um dos momentos mais interessantes da sua prestação parlamentar foi aquele em que homenageou Jean-Claude Juncker. Elogio justo e indiciador de uma possibilidade de colaboração futura que deve ser incentivada.
Por todas as razões e mais algumas a saída da Grécia da Zona Euro constituiria um rombo muito significativo em todo o processo europeu. Tudo indica agora que tal não irá suceder, embora neste caso cautelas e caldos de galinha nunca venham a ser demais. Sejamos, porém, mais optimistas.
2. Sendo a democracia o único regime que valoriza abertamente o pluralismo, a diversidade e o conflito de opiniões, ele precisa como nenhum outro de algumas referências cívicas e éticas acima de qualquer divergência. Raríssimas foram as ocasiões em que essas referências se materializam em seres humanos concretos. Foi esse o caso de Maria Barroso. Agustina escreveu um dia que a verdadeira dimensão de alguém se nota no momento do seu funeral. Nem sempre assim é. Foi-o neste caso. Estava lá o país inteiro, sem calculismos nem fingimentos.
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