Co-Argumentação

Bernardo Castro

Vêm da "Retórica" de Aristóteles, os ensinamentos acerca do modo como devemos argumentar sobre qualquer assunto. Naquela obra, diz-nos o autor clássico:
Os argumentos convincentes fornecidos através do discurso são de três espécies: 1) Alguns fundam-se no carácter de quem fala - ethos; 2) alguns, na condição de quem ouve - pathos; 3) alguns, no próprio discurso, através da prova ou aparência de prova - logos.
Nos assuntos mais tipicamente controversos – aborto, casamento de pessoas do mesmo sexo, adopção por pessoas do mesmo sexo, eutanásia, etc…, são normalmente invocados dois destes tipos de argumentação:
- Ethos – trata-se do comum "puxar dos galões", da autoridade de uma pessoa ou entidade reconhecida – "O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem já condenou a Áustria por não adoptar a co-adopção. Temos que seguir esta jurisprudência, sob pena de ficarmos atrasados"; ou "Nos países A, B C e D isto já se faz há muito tempo, por isso nós estamos errados e a perder o comboio da civilização"; ou ainda "Estudos fiáveis da American Psychological Association indicam que as crianças educadas por dois pais ou duas mães são emocionalmente saudáveis e não sofrem de bullying nas escolas";
- Pathos – tão utilizado pelos filhos quando lambuzam os pais com beijinhos, antes de lhes pedirem um favor. É o comum "falar ao coração", "puxar ao sentimento", que nos fazem olhar para o caso particular e querer generalizá-lo – "Existem casos verdadeiros de gente que já vive nestas condições: o que é que lhes vamos dizer, quando o pai natural ou primeiro adoptante morre? Vamos mandá-los novamente para uma instituição???"; ou "Conheço casos de famílias em que os filhos foram educados num ambiente de homossexualidade e que são felizes e integrados. O que é que se lhes faz???"; ou "Estas duas mães casaram e fizeram inseminação artificial: vai-se dizer à criança que o ambiente em que as mães vivem não é o mais adequado para o seu saudável crescimento???";
Estes dois primeiros tipos de argumentos são uma aposta inteligente, forte e necessária para suprir as lacunas da falta de força dos argumentos da lógica – o logos. Aliás, a mera argumentação baseada na lógica (que deveria ser pilar da razoabilidade), sem qualquer ilustração, parece estar condenada nestes assuntos. Aparentemente, nunca vai chegar dizer-se que "o ambiente ideal para uma criança ser criada é aquele onde exista um pai e uma mãe"; sendo verdadeiramente escandalosa a invocação de qualquer argumentação relacionada com a natureza das coisas (segundo parece, o nazismo inviabilizou para sempre a utilização deste argumento, qualquer que seja a situação)…
Nestas discussões e debates, há normalmente muito maior habilidade e profissionalismo da parte dos "prós", sendo louvável o seu trabalho de backstage: dominam os casos, as particulares e a sua apresentação – ethos e pathos - como o Neymar domina a bola. E aqueles que recorrem à lógica para falar sobre o assunto são aparentemente vencidos, sempre sob o mesmo veredicto – querem impor a sua visão sobre os outros, limitando-lhes a liberdade.
Sobre aqueles assuntos de ruptura, para os quais mais seria precisa a lógica na busca pura da verdade, parece que estamos condenados à incerteza, parece que a verdade sempre nos vai fugir pelos dedos. É mesmo impressionante que, sobre assuntos que toda a gente reconhece como tão importantes, tão fundamentais, a verdade se resuma à "minha verdade" ou, na melhor das hipóteses, "à nossa verdade".
Logos – parece-me lógico que, sendo assim, "existindo", na melhor das hipóteses duas verdades sobre assuntos de ruptura, avançar sobre um deles sem a certeza de que, pelo menos, é a verdade democraticamente representativa, é um risco perigoso.
O pior é se houver, realmente, uma Verdade sobre todos estes assuntos…

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