Entrevista a Fernando Santos (excertos)

Expresso-revista, 20151115
A Grécia fê-lo crescer?
Sim, muito, como homem.
E mudou-o muito? Pergunto-lhe isto porque o Fernando Santos das conferências de imprensa antes de ir para a Grécia não é o mesmo de agora. Parece mais solto.
Vais sempre evoluindo e reconhecendo algumas coisas que fazes bem e mal. Os gregos são muito mais informais do que nós, e voltei a adquirir um gosto, na Grécia, que tinha perdido em Portugal: ter contacto com os jornalistas, depois dos treinos, e falarmos uns com os outros.
Ainda é um homem de fé?
Ainda? Ainda? Sempre. Sou um homem de muita fé. Não se perde a fé.
E continua a ir à missa aos domingos?
Sim, e aos dias de semana, quando posso, também.
Nunca se atrasou para um treino por causa de uma missa?
Não, se tenho um jogo à tarde, vou à missa às sete da manhã. Só não vai à missa quem não quer. Podemos conciliar tudo na vida.
Encontrou igrejas católicas na Grécia?
A primeira coisa que fiz, quando cheguei, foi procurar uma. Ficava a dez minutos de minha casa.
Nos balneários, encontram-se todas as religiões. Sendo o Fernando um homem de fé, acha que terá influenciado algum jogador?
Converter, talvez tenha convertido. Admito que sim. Agora, não sei se foi no balneário, mas há uma coisa que sempre norteou a minha vida: o respeito. E se eu quero que respeitem a minha convicção religiosa, parto do princípio que tenho de respeitar as convicções dos outros. Não há religiões melhores ou piores, apenas diferentes.
Reza todas as noites?
E todas as manhãs, quando acordo. É a primeira coisa que faço. E quando me deito também. Se eu ofereço o meu dia a Deus, tenho de agradecer-Lhe à noite.
E ainda canta os parabéns a Cristo na noite de Natal?
Sim, embora não seja uma coisa que tenha feito sempre. Até que percebi que a festa era Dele. Na realidade, nós comemoramos é o aniversário de Cristo, o seu nascimento. Também cantamos os parabéns aos nossos filhos, não é?
Há pouco, disse que o António Fidalgo era seu afilhado de casamento. É padrinho de muita gente?
Sou, embora cada vez menos. O padrinho é a figura mais importante do batismo, além do batizado. É ele quem assume a responsabilidade de educar as crianças na fé. Agora, só o sou se tiver a certeza da parte dos pais de que querem que os seus filhos cresçam na fé.
Mas essa fé que tem foi algo que lhe foi transmitido pelos seus pais?
Não. Sou cristão desde o meu batismo, a 16 de janeiro de 1955. Depois, o meu percurso é igual ao teu ou ao de qualquer outro: fiz a Primeira Comunhão, o Crisma e, entretanto, desapareci. É verdade que casei pela Igreja e batizei os meus filhos, porque a semente estava lá, depois podia ou não brotar. Até que, em 1994, percebi que Cristo está vivo, uma realidade distante daquela que eu percebia.
Porquê?
Porque eu acredito que Ele ressuscitou. Porque ser cristão não é mais nem menos do que ter a certeza que Cristo ressuscitou. São Paulo diz isso de uma forma bastante clara: se não ressuscitou, a nossa fé é vã. Portanto, está vivo. É tão simples quanto isso, nós é que o tornamos complicado. Acredito na ressurreição, que a vida é uma passagem, algo que não acaba, que a morte não existe. Ele está no meio de nós, em todo o lado.
E porquê em 1994?
Porque fui despedido do Estoril e porque tinha uns amigos que me desafiaram a fazer um curso de Cristandade, e eu lá fui. Pensei que era uma boa oportunidade para estar três dias descansado e, olha, encontrei Cristo. Foi a maior sorte da minha vida.
Continua a jogar à sueca?
Sim. E a jogar bridge, e a comer caracóis, e a ir à pesca... E a fumar.
Fuma muito?
Nunca fumei mais do que um maço de tabaco por dia, salvo raríssimas exceções, quando ia beber uns copos até às tantas. Ou até hoje, porque ainda gosto de beber copos com os meus amigos. Gosto de fazer as coisas que sempre fiz, e faço-as, com a exceção de jogar ténis, porque já não tenho idade para isso.
Como é que quer ser recordado?
Quero ser lembrado como bom pai, como bom filho, como bom marido, como bom amigo...
E o futebol?
Não importa. O futebol não significa nada, se o compararmos à paternidade ou à amizade. Nada. Zero. 
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