1279 Santos!

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
Voz da Verdade, 2015.11.15

Segundo a revista do Expresso, de 17 de Outubro de 2015, em Portugal, só no primeiro semestre de 2015, foram registados 1279 Santos! Em boa hora o calendário litúrgico dedica uma solenidade, que é de preceito, à inumerável multidão dos santos, no primeiro dia de Novembro, um dos tais feriados que, segundo consta, serão em breve repostos no calendário nacional.
Para quem apenas se consegue lembrar de uma escassa meia dúzia de bem-aventurados portugueses, talvez surpreenda uma tão elevada cifra de Santos nacionais. Como explicar, então, os 1279 Santos, só no primeiro semestre deste ano?! A resposta é mais óbvia do que, à primeira vista, podia parecer: estes 1279 Santos não são compatriotas nossos que chegaram aos altares, mas o total dos cidadãos nacionais que, segundo o Instituto de Registos e Notariado, foram, no primeiro semestre do corrente ano, registados com este apelido...
Deixando de lado a questão onomástica, de somenos importância, interessa afirmar que, mesmo sendo poucos os santos portugueses oficialmente reconhecidos como tal, são certamente muitos mais do que os beatificados ou canonizados, mas talvez não tantos quantos os que usam um nome tão expressivo da nossa tradição cristã.
A ideia de que a santidade é apenas para uma elite de cristãos ou, pior ainda, que é preciso ser especial para ser santo, não é apenas errada, mas herética. Com efeito, o Concílio Vaticano II proclamou solenemente, como antes preconizara S. Josemaria Escrivá, que todos os cristãos são chamados à santidade. Os primeiros seguidores de Cristo consideravam-se, sem qualquer tipo de presunção, santos, e como tal são referidos, habitualmente, por São Paulo, nas suas cartas.
A santidade não é a excepção, mas a regra da condição cristã: anormal não é quem é santo mas quem, podendo e devendo sê-lo, o não é. Um cristão que não é santo é alguém que frustrou a sua vocação, que ficou aquém do desígnio para o qual tinha sido criado, redimido e santificado. Pelo contrário, um santo mais não é do que um cristão normal, ou seja, alguém que realizou em si mesmo a plenitude da vida cristã para a qual tinha sido por Deus chamado. Não é o santo que é um sobredotado, mas o não santo que é, em termos de vida cristã, um frustrado espiritual.
Se houve santos estranhos, com vidas insólitas, pejadas de fenómenos invulgares, não se deve pensar que foi por isso, mas apesar disso, que chegaram ao Céu. A santidade não se afere em função de acontecimentos extraordinários, mas pela forma extraordinária como se cumprem as obrigações comuns, sejam elas pessoais, familiares, laborais, políticas, sociais ou religiosas. Desde que seja moralmente lícito, tanto dá o que se faz, desde que se cumpra, com perfeição cristã, o próprio dever e, sobretudo, se ame a Deus e ao próximo. Para ser santo não é preciso mudar de actividade, de estado, de trabalho ou de local de residência, porque é na família, ofício e lugar de cada qual que se pode e deve alcançar essa meta, que é acessível a todos os fiéis, sem excepção.
Por muito que nos maravilhem as biografias espectaculares de certos santos, aos quais foram concedidas grandiosas visões, ou a graça de realizarem surpreendentes milagres, a verdade é que nenhum desses bem-aventurados iguala a qualidade sobrenatural das duas criaturas mais santas de toda a humanidade: Nossa Senhora e São José. Maria não deixou, para a posteridade, a lembrança de nenhum milagre por ela realizado em vida, nem sequer nenhuma famosa receita de culinária… Seu marido, carpinteiro de profissão, também não se destacou por nenhuma obra-prima, nem protagonizou, que se saiba, qualquer feito milagroso. Contudo, ambos foram, certamente, os mais excelsos santos cristãos, pelo cumprimento amoroso das suas tão vulgares obrigações familiares, religiosas e profissionais, cheias de sentido sobrenatural e de eficácia evangelizadora.
Não estranha, portanto, que Jesus tenha dedicado a quase totalidade da sua existência terrena à prosaica vida familiar, religiosa e laboral de Nazaré. Desse modo, o carpinteiro, filho de Maria e de José, ensinou o caminho da santidade que devem trilhar todos os fiéis que, imitando o divino Mestre, são chamados à perfeição da caridade através da dedicação à sua família, da sua integração e serviço na respectiva comunidade eclesial e do seu empenho na transformação do mundo, através do seu trabalho profissional.
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