segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Sócrates: perguntas simples para um complicado mistério

Henrique Monteiro
Expresso, 20151123

O ex-primeiro-ministro e ex-líder do PS aproveitou a passagem de um ano sob a sua detenção para fazer uma espécie de sessão de esclarecimento (para não lhe chamar sessão de campanha). Não lhe nego esse direito, mas não me sinto bem com a minha consciência se não disser que com ele estiveram pessoas pelas quais tenho amizade, admiração e, até, ternura. E não entendo como estes não se interrogam sobre o que estão ali a fazer.
É natural que Sócrates se defenda – faz parte da estratégia de qualquer acusado; assim como é normal que queira envolver os seus mais chegados nessa estratégia. Porém, quando entre esses estão figuras públicas e referências da nossa República, seria bom que os amigos não dessem o passo da solidariedade sem terem bem esclarecido o que se passa. Será que o têm?
Considero difícil que tenham ponderado todos os aspetos, ou de outro modo ficaria bastante desiludido com o sentimento de impunidade política que propalam. E com isto – sublinho-o fortemente – não entro em linha de conta com nada de jurídico, com aspetos de culpabilidade ou de inocência ou matérias que cabem à Justiça e aos tribunais. Apenas me refiro a assuntos que dizem respeito à política e nada mais.
Os factos públicos e reconhecidos pela própria defesa são de molde a que Sócrates não possa ser alguém politicamente recomendável. Nomeadamente quando se afirma, como fizeram o próprio e a defesa, não ser crime pedir dinheiro emprestado a amigos – o que, de facto, não é crime -, não deixa de ser muito estranho que um ex-primeiro-ministro, ou mesmo eventualmente no tempo em que era primeiro-ministro, receba dinheiro de um empresário ligado a uma empresa de construção.
Aqueles meus amigos, que referi, sabem-no. E, no geral, com outra personalidade qualquer, seriam muito críticos e condenariam tal conduta. Verifiquemos, por exemplo, e sem sectarismos, o que fazem os ex-primeiros-ministros anteriores a Sócrates:
Soares foi Presidente e está na sua Fundação, que se saiba com os rendimentos de antigo Presidente, com rendimentos do Colégio que é seu e com dinheiro da família que já existia.
Cavaco Silva, depois de primeiro-ministro, voltou a ser professor, foi depois eleito Presidente e vive de reformas, que aliás, de forma muito infeliz, considerou de baixo valor, quando tais rendimentos são superiores aos de 90 ou 95% dos portugueses.
António Guterres foi para a ONU, para Alto-Comissário para os refugiados.
Durão Barroso foi para Presidente da Comissão Europeia.
Santana Lopes andou por aí, que se saiba com dificuldades, e está agora Provedor da Misericórdia.
Nenhum deles viveu com o luxo e a ostentação de Sócrates. E isto não advém de nada que esteja no processo, mas de relatos de jornalistas independentes. Por um desses jornalistas, o correspondente do Expresso, ponho de facto as mãos no fogo.
Acresce outro facto político: se os amigos podem emprestar dinheiro a amigos, por que razão as transferências de Carlos Santos Silva para José Sócrates eram tão camufladas?
Por que motivo Sócrates usava sempre numerário e nunca cartões?
E por que foros o ex-primeiro-ministro tinha casas ou contas offshore? (sobre tudo isto recomendo o magnífico trabalho de Micael Pereira no Expresso e os simples mas explicativos pequenos filmes que fez em conjunto com outros colegas e que podem ser encontrados no site deste jornal).
Nada disto faz aquelas pessoas interrogarem-se? Nada os faz desconfiar? Não exigem a Sócrates (já não digo o próprio partido, mas os amigos) explicações políticas? Acham tudo isto normal?
Isto são perguntas simples. As respostas, essas, podem ser complicadas.
Não sei o que dizer. Sinceramente, não sei o que dizer de pessoas que não colocam a probidade republicana à frente da amizade e da cumplicidade política.
PS - Duas breves notas sobre o encontro Cavaco e Costa. Ao contrário do que se continua a ouvir (ainda hoje um espectador da SIC que, salvo erro, não foi corrigido), se as eleições tivessem sido em junho (como eu defendi), o Presidente não poderia dissolver o Parlamento, porque não o pode fazer nos seis meses subsequentes à eleição da AR. Também não o pode fazer nos últimos seis meses de mandato. A vantagem de junho era a elaboração atempada do Orçamento e nada mais.
Segunda nota: as seis condições que Cavaco colocou a Costa não parecem impossíveis, nem especialmente difíceis para o líder do PS. Talvez a mais complexa seja a do Orçamento para 2016, uma vez que o PCP tem vindo a dizer não dar carta branca ao que não conhece. Porém, tendo em conta o pedido do PR, penso que Jerónimo será mais flexível. Outra hipótese, essa bastante má para todos, sobretudo pelo tempo que faria perder, seria Costa não conseguir cumprir as condições e dizer a Cavaco que arranje uma solução melhor do que os “documentos, distintos e assimétricos, subscritos entre o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista Português e o Partido Ecologista Os Verdes”, como se lê no comunicado da Presidência.
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