Irmandade do bem

Inês Teotónio Pereira, online 20151128
O rei vai nu, anunciam os senhores do bem, e por isso o superior interesse nacional é deles, é divinamente deles, porque só deles pode ser
Acabou. Acabou com mágoa mas sem saudade o pesadelo e uma época. Uma época de tirania, de rancor e de austeridade que tinha apenas como fim trágico e sádico o empobrecimento, a miséria; que tinha apenas como glória a humilhação do outro e a exploração do outro por outro qualquer. Acabou, acabou tudo. Ao fim de semanas de luta e de obstáculos vencidos, a irmandade do bem, unida por um anel de acordos forjado em nome desse desígnio maior que é o povo português, ganhou. O caminho foi feito de pedras, mas conseguiu-se resgatar da sombra do protesto e da penumbra, da rua mesmo, os partidos feridos e injustamente excluídos através do voto do direito de governar em nome do povo. Mas quem mais pode governar em nome do povo senão aqueles que sabem qual é a sua vontade? Só eles. Apenas eles. 
Respira-se agora uma nova atmosfera, límpida e imaculada, que abraça a única ordem possível das coisas, agora repostas no seu lugar tal como uma moldura que é finalmente endireitada. Nem sequer chove. É de todos e todas o ambiente de esperança e de bondade, de prosperidade e de solidariedade, é nosso um novo desígnio ao virar da esquina do rio. Foram por fim arrancadas e desfeitas as correntes da austeridade. As amarras que subjugaram o país a uma cultura de pobreza, ao vício da caridadezinha que os tiranos do mal, mal-amados e mal- -intencionados, enraizados nos escombros do fascismo e do catolicismo bafiento, exploraram, implantaram e que sadicamente, entre um ranger de dentes e um esfregar de mãos, prenderam todos os portugueses. Todos? Não: os ricos, os burgueses, os habitantes do pântano da hipocrisia e dos privilégios não entraram nessa lista negra. Saíram ilesos, com as suas armaduras reluzentes sem vestígios de uma luta feroz que não travaram nem sofreram. 
Desprenderam-se finalmente as amarras de uma direita de excel mais preocupada com contas do que com pessoas, com exames do que com alunos, que escolheu a mesquinhez da matemática em detrimento da cidadania e da sexualidade – ou mesmo da Constituição, por Júpiter! Uma direita que gosta mais de banqueiros que dos bancos de jardim onde os pensionistas congelados nas suas reformas se sentam e se entretêm num jogo de cartas que todos os dias acaba da mesma maneira: sem esperança de ganhar. 
Mas acabou. Acendeu-se de novo o brilho nos olhos dos velhos por um ou dois euros a mais. Apenas, dirão. Mas é um sinal, e o que é a vida senão um sinal? Hoje e amanhã, a irmandade do anel do bem salva e salvará os portugueses que vivem em Portugal ou no estrangeiro, os estrangeiros, os heterossexuais ou os homossexuais, as crianças ou os bebés. Todos e todas, e até aqueles que recusam o preconceito dos rótulos de género. 
Foi ilegítimo, gritam os semidemocratas, enrouquecidos e enfurecidos pelo fel que lhes fere a garganta e desafina a voz. Ressabiados na dor de quem perdeu achando que ganhava, apesar de ter ganhado. Mas não, as vitórias são e serão sempre do bem, da irmandade, por mais equívocas que pareçam à luz de uma interpretação facciosa de quem já não manda apesar de viver num palácio. 
O rei vai nu, anunciam os senhores do bem, e por isso o superior interesse nacional é deles, é divinamente deles, porque só deles pode ser. Não é, não voltará a ser dos ultraconservadores ou neoliberais que engordam com a miséria dos que exploram; não é, jamais será, dos que não mandam, eleitos ou não. 
Um novo horizonte onde o sol se põe sem deixar de brilhar desvendou-se através do encanto de quem sabe manobrar. De quem sabe interpretar a justiça soltando os perseguidos e prendendo os que perseguem; calar os que transbordam ódio e dar voz aos virtuosos; criar riqueza através da forte convicção de criar riqueza; melhorar a educação do povo porque é dela o reino da administração pública; parar a sangria do coração de Portugal que é irrigado pela rede de transportes terrestres; descongelar tudo o que possa ir ao microondas; morder os calcanhares do monstro europeu com a fúria dos justos porque é lá que se fabrica o aço das amarras da austeridade. “After all, tomorrow is another day!”, disse Scarlett O’Hara. Não, Scarlett: o nosso amanhã é hoje e já canta!
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