terça-feira, 24 de novembro de 2015

O ativismo anti-Cavaco é irritante

Henrique Monteiro
Expresso, 20151124

Cavaco nomeou Costa e isso foi uma vitória da esquerda. Porquê? Porque Cavaco tentou não nomear Costa. Porquê? Porque nomeou primeiro o vencedor das eleições! Porquê? Porque era o costume… Pois, a linha de argumentação não é grande coisa. 
De qualquer modo, é uma vitória da esquerda. Porquê? Porque Cavaco demorou muito tempo a dar posse a Costa. 25 dias! Inacreditável. É certo que outros Presidentes, em situações menos complexas, demoraram mais. Mas Cavaco, caramba! é Cavaco. É um “gangster”, é “nojento” (ouvi há pouco um telespectador dizer), é uma “múmia”. 
Seja como for é uma vitória da esquerda. Porquê? Porque Cavaco colocou dúvidas a Costa. É certo que Sampaio colocou condições muito mais duras a Santana e que os presidentes podem colocar dúvidas e condições aos primeiros-ministros. Mas colocá-las a Costa é uma afronta! Vejam como Jerónimo ameaçou logo com a rua, colocando condições a todos nós. E se há quem perceba de afrontas é o PCP. 
Cavaco não aceita os resultados de 4 de outubro, eis o que dizem. Mas os resultados de 4 de outubro não deram a vitória a Costa, nem a ninguém. Em primeiro ficou Passos, sem maioria. Em segundo lugar ficou Costa, que arranjou acordos separados com partidos com que o PS jamais se havia coligado e que se manifestaram sempre contra a NATO, contra a integração europeia e com muitas dúvidas sobre o Euro, além de exigirem a reestruturação da dívida. Qual é o espanto? Na verdade isto não tem mal nenhum, afirmam, é da maior normalidade do mundo. 
Vê-se que em muitos outros países os segundos classificados são primeiros-ministros. Mas esconde-se que nesses países não há presidentes eleitos por voto secreto, direto e universal (a maioria são monarquias) e que nalguns deles, embora o primeiro-ministro não seja do partido mais votado, o partido mais votado também está no Governo. 
Em suma, o que pretendo dizer, eu que nunca apreciei o estilo Cavaco, é que o ativismo impõe-se no discurso público ao formalismo. As pessoas querem ação, não querem saber de prazos e formalidades. 
Nomear Passos – como o costume português indica – foi considerado uma perda de tempo. Colocar condições – como tantas vezes aconteceu – uma afronta. Ouvir pessoas e demorar quatro semanas a arranjar uma solução, um crime. 
Esse ativismo, que não conhece barreiras nem regras, está obviamente a prejudicar qualquer solução, nomeadamente um Governo do PS. A expectativa é tão alta que dificilmente um Governo PS poderá agradar a uma base tão radicalizada. 
Seria por isso indicado reforçar os apelos, que António Costa já fez, para que os dirigentes, deputados e responsáveis do PS mantenham a calma e a compostura. 
O problema é que Costa transformou o ativismo do Bloco e do PCP em parte do apoio indispensável ao seu Governo, de modo que temos de viver com ele. Temos de viver a ouvir constantemente que o Governo anterior (que tinha maioria absoluta) era ilegítimo – só porque não gostavam dele. Que Cavaco se devia ir embora, porque não gostam dele. Que fulano e beltrano não podem ser isto ou aquilo, porque não gostam deles. A legitimidade que advém do cumprimento da lei e da formalidade de nada interessa. 
Posto isto, como já afirmei muitas vezes neste espaço, nem tudo o que é legal é justo. Por mim, Cavaco já devia ter dado posse a Costa há bastante tempo. Mas não há quem me aponte uma inconstitucionalidade, uma falta formal que Cavaco tenha cometido. 
Por tudo isto, a sua decisão tem de ser respeitada. Perceber que, como escreveu Steinbeck em “As vinhas da ira”, frase alvo de muitas glosas em filmes (a de John Wayne em “Rio Bravo”, de Howard Hawks, será a mais famosa), a man’s got to do what a man’s got to do (ou seja, um homem tem de fazer aquilo que um homem tem de fazer). 
Foi o que Cavaco fez.
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