sábado, 19 de setembro de 2015

Os meus filhos deviam votar

Inês Teotónio Pereira | ionline | 2015.09.19
“Senhor PM, tem três minutos para explicar tudo o que fez, não fez e quer fazer com a Segurança Social. Está a contar.” 
Bem. É por isso que os debates dão adrenalina aos meus filhos
Os meus filhos gostam de debates. Grave: não é suposto as crianças gostarem de debates de política quando ainda nem sequer têm idade para aprender o que é uma república. As crianças gostam de filmes, de desenhos animados, de macacadas, de imagens coloridas, programas barulhentos e de séries juvenis parvas e estridentes. Aquilo que é normal é os pais quererem ver debates e os filhos refilarem porque querem ver uma estupidez qualquer. Pois em minha casa não é assim. Em minha casa a criançada delira com duelos políticos televisivos. Tirando o futebol e os anúncios onde apareça o Ricardo Araújo Pereira, são os debates os programas preferidos dos meus dependentes. Estranho? Ao princípio, nos primeiros debates, também estranhei. Preocupei-me, mesmo. “O que vai ser destas crianças, meu Deus?” Mas ao fim de alguns debates percebi porquê: os debates não são debates, são programas de entretenimento que desafiam na forma e no estilo qualquer programa de talentos e ombreiam em interesse qualquer programa juvenil. 
Os debates nos dias de hoje são muito menos chatos do que um jogo de futebol. Aliás, não são chatos: são organizados de forma inteligente para que ninguém perca muito tempo com eles. Tudo que sejam coisas interessantes para dizer, explicações que não tenham apenas dois momentos de raciocínio ou informações relevantes, não devem ser debatidas. Ora, isto torna os debates programas mais atrativos. Dá para fazer zapping com a novela que não se perde nada dos dois lados. Pois assim é que deve ser. Segurança social: “Senhor PM, tem três minutos para explicar tudo o que fez, não fez e quer fazer com a Segurança Social. Está a contar.” Bem. É por isso que os debates dão adrenalina aos meus filhos. Três minutos sobre essa coisa - vê lá se consegues.  
Os debates são uma espécie de Factor X onde se fala em vez de se cantar ou dançar. Tal como nos Ídolos ou no Dança Comigo o que interessa é quem ganha e quem perde e isso acabou de vez com o tédio dos debates antigos e entediantes onde se discutia política e coisas assim que os políticos fazem. As coisas mudaram e o que interessa agora é quem não desafina mesmo que a música seja a pior do mundo. E é isso que encanta os meus filhos: o estilo, quem se enerva, quem é apanhado num argumento falso, quem não sabe explicar uma ideia dentro do tempo, quem se ri mais, quem ataca, quem tem o estilo mais cool, quem é mais confiante, mais giro, mais simpático, quem, no fundo, deve continuar no programa até à gala final. O que se diz é irrelevante. Os meus filhos, perante um debate sentem-se na pele dos júris dos programas de talentos e adoram a sensação. Além disso no último mês ganharam o jeito para fazer análises. 
Por exemplo, no primeiro debate entre António Costa e Passos Coelho, em que a maioria dos especialistas e de pessoas com página no Facebook analisaram com profundidade que passosmal e costabem, os meus filhos acharam que passosestásemprealevar e que o outrosódizmal. E foi com a mesma profundidade que vaticinaram que os jornalistasmal porque não deixam ninguém falar e estão sempre zangados. Também acham que está mal ninguém debater com profundidade outras questões profundas e importantes porque os senhores que debatem os debates depois dos debates dizem sempre que não se debateram com profundidade outras questões profundas e importantes. Sobre estes senhores eles também têm opinião formada: têm medo de Miguel Sousa Tavares porque “tem cara de mau”, acham graça a Marcelo “porque tem piada” e acham que os outros têm inveja dos políticos por isso dizem sempre mal. 
É por causa dos meus filhos que tenho visto com regularidade os debates. Mas num deles, tendo em conta a complexidade das questões, adormeci. Quando acordei perguntei: “Então, como é que está a correr?”. Sem tirar os olhos da televisão um deles responde: “A Catarina Martins está a sair da casca”. Assim: 10 anos de sabedoria política, ali resumidos em 5 segundos. E o Costa? “Igual a sempre: não se percebe nada”. Pumba, mais uma. Quem ganhou? “A Catarina Martins: ela já não grita tanto”. E é por isto, por ter testemunhado durante as últimas semanas tanta sabedoria, tanta profundidade, tanta análise política da boa, que não entendo porque é que os meus filhos ainda não podem votar. 
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