O comediante

José António Saraiva |Sol| 17/09/2015

Teatro, o poder e o dinheiro cruzam-se muitas vezes perigosamente. Esta é a história de um homem com vocação teatral que mostrou uma ambição desmedida pelo poder e depois se deixou fascinar pelo dinheiro.

Na televisão vejo a fachada de um prédio banal, com uma arquitetura típica dos anos 50, situado perto da Avenida Almirante Reis, e interrogo-me: «Mas o homem vai viver aqui?». Um homem acostumado a mordomias, que habitou em Paris no luxuoso 16.º bairro, que viaja sempre em executiva e fica alojado em hotéis de 5 e 6 estrelas, que veste roupa das melhores marcas, vem para aqui viver como uma pessoa banal, numa casa de três assoalhadas de um prédio banal, numa rua banal de uma zona banal de Lisboa?
Este mergulho na banalidade – ou, mais propriamente, na realidade – constituiria decerto um choque tremendo para um homem habituado durante anos (exceção feita aos últimos dez meses) a uma vida de estadão.
Mas afinal, as coisas não eram bem como pareciam. A entrada daquele prédio banal da década de cinquenta dava acesso ao interior de um quarteirão onde se situava uma moderna vivenda – onde, aí sim, o homem vai ficar instalado.
E não se trata de uma vivenda qualquer. Segundo o Correio da Manhã, a casa custou 550 mil euros mas sofreu obras de remodelação orçadas em 300 mil. Ora, 300 mil euros para umas obras de remodelação, é obra! Representa um investimento que não está ao alcance de qualquer bolsa. Fiz remodelações em casas minhas ou de amigos que não atingiram 10% daquele valor... 
Portanto, o homem continua a viver à grande. E digo ‘o homem’, embora a casa esteja supostamente em nome da ex-mulher, Sofia Fava. Mas é como se fosse dele. Aliás, naquele clã – e no respetivo círculo de amigos –, o que é de um é de todos. Trata-se de propriedade coletiva. Recorde-se que a herdade que Sofia Fava tem em Montemor foi paga com dinheiro do amigo Carlos Santos Silva. O mesmo amigo que comprou casas à mãe do nosso homem – cujo dinheiro foi parar a uma conta que supostamente lhe pertence.
Naquele círculo, pode dizer-se que todos funcionam como ‘em família’. Quem mais visitou o homem na prisão não foi a mãe, nem o filho, nem a namorada, nem sequer Mário Soares – foi Manuel Costa Reis, o atual companheiro da sua ex-mulher.
Estranho, não é? 
Por acaso, ouço falar dele há muitos anos. É filho de um ex-administrador do Expresso, já falecido, Francisco da Costa Reis – que era um senhor muito certinho, sempre impecavelmente vestido, advogado e amigo de Balsemão, que gostava que o descendente tirasse um curso, provavelmente Direito. Falou-me disso várias vezes. Só que o rapaz queria à viva força ser músico, e a dada altura passou a integrar a banda de Rui Veloso, perante o desgosto do pai. Mas a vida é mesmo assim. 
Nessa época eu não conhecia o rapaz. Só vim a conhecê-lo pela televisão muitos anos mais tarde, quando as câmaras o mostraram com grandes sacos na mão a entrar na prisão de Évora, para ir visitar o homem. Disseram que lhe levava livros e DVDs. Não sei se lhe levaria outras coisas, como petiscos alentejanos feitos por Sofia e cigarros...
Mas voltando ao assunto, o homem – apesar de ter vendido a casa da Rua Braamcamp – continua muito bem instalado. Segundo o Correio da Manhã, a moradia até tem uma piscina interior. E, sendo perto da Almirante Reis, é já na zona da Fonte Luminosa, portanto próximo do Areeiro. O que é muito melhor do que se fosse para os lados do Intendente…
Para assinalar a ida do homem para casa, embora em prisão domiciliária, os advogados de defesa deram uma conferência de imprensa. Eles estão sempre a dar conferências de imprensa. E aí João Araújo disse que o Ministério Público tem vindo a recuar, começando «em prestações suaves a bater em retirada». E acrescentou que o envolvimento do seu constituinte no empreendimento de Vale do Lobo é uma invenção. «Sem fundamento, patética, e que, a cada momento, se demonstra mais infundamentada e ridícula».
Ora, eu tinha uma impressão diferente. Achava que, desde que o homem foi preso, já se descobriram coisas inimagináveis – desde o uso de um administrador do Grupo Lena, Joaquim Barroca, como barriga de aluguer, até à implicação de Hélder Bataglia no caso, passando pela descoberta na casa da Rua Braamcamp de quadros de Pomar e Almada Negreiros pagos por Santos Silva, ou pela detenção de Armando Vara e a sua constituição como arguido. 
Percebeu-se também que à volta do homem havia uma teia de gente que o ajudava, que lhe emprestava dinheiro e casas, que lhe disponibilizava as contas bancárias, que lhe comprava o livro para este chegar aos tops, que lhe levava mimos à prisão…
Não sei, pois, como o advogado João Araújo pode dizer com tanta ligeireza que é tudo uma «invenção» e que «não há factos». Não há é poucos… 
Também não sei se é legítimo um advogado afirmar com todas as letras que uma investigação judicial é «infundamentada», «ridícula» e «patética». É verdade que vivemos num país livre. Mas há limites para a linguagem. Ninguém pode dizer tudo o que lhe vem à cabeça, sobretudo quando isso põe em causa a competência, dignidade e profissionalismo de terceiros. 
Até porque, olhando para as declarações de João Araújo ao longo deste processo, elas é que revelam prodígios de imaginação. Para não ir mais longe, como acreditar, por exemplo, na explicação de que a venda da casa da Rua Braamcamp foi para pagar «integralmente» a dívida a Carlos Santos Silva, como disse Araújo? Se até há pouco não se conhecia o valor dessa dívida, como é que, de repente, se sabe – e, por coincidência, ela corresponde exatamente à quantia que foi paga pela casa? Alguém acredita nisso?
Não está na cara que essa venda do apartamento no Edifício Héron-Castilho teve por único objetivo deitar areia para os olhos das pessoas, tentando mostrar que Santos Silva emprestou mesmo dinheiro ao homem e que este tinha a intenção de lhe pagar? Mas, ao mesmo tempo, este expediente não soa a demasiado óbvio e parece quase infantil?  
Deixemo-nos de tretas. João Araújo diz que o Ministério Público tem vindo «a bater em retirada» e que chega a ser «patético». Ora, eu vejo precisamente o contrário: vejo que o Ministério Público tem vindo a avançar no processo – e que Araújo está em fuga acelerada para a frente. 
Mais: vejo que as suspeitas do Ministério Público têm vindo sempre a ser confirmadas pelo Tribunal da Relação, pelo Supremo Tribunal e pelo Tribunal Constitucional, enquanto os recursos da defesa e os pedidos de habeas corpus são invariavelmente chumbados.
Perdoe-me o advogado, mas – talvez pressionado pelo seu constituinte – tem tido neste caso um comportamento que, esse sim, merece o adjetivo com que tentou atingir a Justiça: «patético». Há, no entanto, uma desculpa para isso: em muitos momentos, João Araújo parece não passar de um comediante. l
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