A cura da Europa

JOÃO CÉSAR DAS NEVES | DN 20150923

A Europa está doente. Isto toda a gente diz; o que poucos compreendem é que o remédio vem com as multidões de refugiados que batem às portas da União.
Esta afirmação controversa é verdadeira a vários níveis. Em termos estritamente económicos, em que os europeus têm sofrido estagnação crónica, os imigrantes trazem sangue novo e dinamismo que tanto têm faltado. É comum ouvir-se que as sociedades envelhecidas e exigentes do Ocidente precisam de trabalhadores jovens que aceitem tarefas pouco qualificadas. Ora são esses precisamente que agora pretendem entrar.
É pois insustentável o argumento de que a imigração aumentará o desemprego. A Europa não tem falta de empregos; tem é falta de empregos que os europeus queiram. Os cidadãos locais procuram ocupações adequadas às suas aspirações de carreira, deixando vagos uma enorme quantidade de postos de trabalho que os locais desdenham. Tal como muitos outros ao longo das últimas décadas, os novos imigrantes vêm ocupar essas funções indispensáveis e produtivas. Se os países os souberem acolher, todos beneficiarão economicamente com isso.
Em termos de segurança, outra preocupação marcante, os medos são igualmente ilusórios. Vale a pena lembrar que estes refugiados são vítimas, não autores do terrorismo. Eles repudiam os atentados e chacinas mais que todos os especialistas europeus, porque os conhecem muito melhor. Por outro lado, recusar a entrada é, isso sim, a melhor forma de promover o terrorismo. É na decadência dos campos de refugiados que os extremistas encontram terreno fértil para as suas ideologias de ódio. Famílias acolhidas, integradas, ocupadas a tratar da sua vida não atendem às vozes de raiva e violência.
Esta é também a melhor solução para os graves problemas políticos da Europa. A única resposta ao extremismo ideológico, de esquerda ou de direita, xenófobo ou islâmico, é uma aceitação serena e integração eficaz dos refugiados. Claro que a entrada súbita de multidões de pessoas desesperadas gera enormes custos e dificuldades logísticas. Governos endividados, economias desequilibradas e bloqueadas, sociedades aburguesadas e conflituantes não resolvem facilmente as questões levantadas por um número significativo de imigrantes, muitos deles em condições precárias. Serão precisos programas eficazes e inteligentes, múltiplas boas vontades comunitárias, intervenções em variados sectores e serviços.
Quem compreensivelmente hesite face a estas dificuldades deve lembrar-se de que o drama não é optativo. Ele é uma realidade que se impõe à Europa, quer queira quer não. Não o podemos eliminar, só escolher a forma de o abordar. Fechar os olhos ou as portas, construir muros ou expulsar indesejáveis nada resolve, empolando dramas e promovendo futuras ondas de horror. A história tem mostrado como a insensibilidade das zonas ricas à miséria dos desalojados, além de moralmente repugnante, acaba por trazer enormes problemas aos que se pretendiam alheios.
Existe ainda uma dimensão mais profunda do bálsamo que a crise de refugiados representa para a moléstia europeia. De facto o drama fundamental da União não é financeiro, económico ou até social, mas cultural. A Europa perdeu a bandeira, a orientação, o fôlego. A União deixou-se enredar nas intrigas de comunidade decadente. O vital espírito comunitário está inquinado de desconfianças entre devedores e credores, suspeitas de Norte contra Sul, acusações entre esquerda e direita. Falta um programa comum empolgante e motivador, um propósito que galvanize a dinâmica integradora dos 28.
A União deve regressar às origens. Precisa de recordar que o seu projecto nasceu da guerra mundial, da devastação e pobreza geral, com multidões de deslocados, órfãos e viúvas. Na época os pais fundadores souberam rejeitar as tentações egoístas, tacanhas e bairristas, apostando numa visão generosa, aberta, integradora. A cooperação resultante, além de reconstruir as regiões devastadas, criou a maior prosperidade que o continente alguma vez conheceu.
Hoje, no meio de polémicas de ricos e sofisticados, a história atira para as portas da Europa dezenas de milhares de vítimas de novos conflitos. Na miséria que vêem os europeus devem relativizar as suas queixas internas, compreendendo como, apesar dos dramas sociais que inegavelmente nos assolam, estamos todos muito melhor do que os que querem entrar. Se neles virmos aquilo que éramos há 75 anos, a Europa pode reencontrar a inspiração de liberdade, acolhimento, abertura e cooperação que lhe deu origem e sentido. Esse é o único remédio.
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