Ferver em água morna

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
DN 2015.09.13

Talvez o requisito fundamental para a existência democrática seja a capacidade de manter as distâncias. A liberdade de imprensa ou a separação de poderes são baseadas na capacidade de guardar a distância. Ao contrário da democracia, os regimes despóticos, sejam violentos ou paternalistas, são promíscuos, em tudo se intrometendo, sem limites nem escrutínio. Só pode aspirar a ser um verdadeiro estadista em democracia quem souber conservar serenamente as distâncias, não apenas no quadro da lei, mas também em relação a si próprio e aos seus impulsos. No passado dia 10, depois de ter ganho o debate com Passos Coelho, António Costa foi entrevistado pelo jornalista Vítor Gonçalves, na RTP. O que prometia ser um passeio transformou-se num desnecessário desastre para Costa. Não é preciso ser um seguidor das entrevistas Hardtalk, da BBC, para perceber que um político tanto mais brilha quanto mais duras e incómodas são as perguntas. Costa começou bastante bem, mostrando dominar os assuntos. As perguntas eram incisivas, permitindo ao entrevistado explorar temas novos. De súbito, Costa dispara contra o jornalista, dizendo que este estava a ser o "porta-voz do Dr. Passos Coelho". A irritação, seguida de libelos semelhantes, seria repetida por mais duas vezes. Ao não respeitar o espaço de liberdade do jornalista, insinuando ser este um mau profissional, Costa acabou por transformar o que poderia ter sido uma notável entrevista num debate contranatura com um jornalista transformado em involuntário oponente. Os eleitores indecisos, por seu lado, apenas vislumbraram um candidato ao vértice do poder em Portugal, vencido pela crispação, entrando em estado de ebulição a baixas temperaturas. Perdendo a noção das distâncias que importaria preservar.
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