segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Se fosse com António José Seguro, o PS ganhava

Alexandre Homem Cristo
Observador 31/8/2015

Costa encurralou o PS quando a estratégia de Seguro tinha tudo para funcionar. Se tivesse mantido a busca por compromissos, seria fácil ao PS mostrar que é possível discordar do governo e ser solução
Ao longo do último ano, convencemo-nos de que António José Seguro não tinha o que era necessário para vencer as legislativas, apesar das vitórias eleitorais nas autárquicas e nas europeias. Convencemo-nos ainda que, com António Costa no PS, tudo seria diferente – uma rápida subida nas sondagens, uma possibilidade real de obter uma maioria absoluta, uma garantia de derrota estrondosa da direita. Ora, a um mês das legislativas e a confiar nas sondagens, o cenário é bem diferente do esperado – o PS não descolou nas sondagens, a maioria absoluta parece impossível e a coligação PSD/CDS até pode vencer as eleições. Notar que António Costa foi sobrestimado é dizer o óbvio. A dúvida é se, no sentido inverso, António José Seguro não terá sido subestimado: sob a liderança de Seguro, o PS estaria melhor colocado para vencer? A história não se reescreve, pelo que nunca saberemos. Mas há algo que já podemos afirmar: a estratégia do ex-líder do PS mostrou-se melhor do que a de António Costa e, se este a tivesse seguido, o PS teria possivelmente melhores perspectivas eleitorais.
Os erros de António Costa já foram amplamente diagnosticados. Deu palco ao legado de José Sócrates. Prometeu a ruptura com as políticas do governo, ficando refém da apresentação de uma alternativa que, rompendo, cumprisse também os requisitos de Bruxelas. Deixou-se associar à irresponsabilidade do Syriza. Sobrevalorizou a importância do eleitorado à esquerda do PS, rodeando-se de conselheiros que, por ignorância ou ideologia, tentaram puxar o PS para longe do centro. E isolou-se num negacionismo absurdo a partir do qual o PS se tem esforçado para demonstrar que todas as boas notícias são, afinal, más e que todos os sinais da recuperação económica no país constituem, na verdade, fracassos. No fundo, construiu a sua alternativa na crença de que Portugal seguiria a tendência de outros países europeus, onde se observou o esvaziamento dos partidos do centro-esquerda e um crescimento à esquerda. Enganou-se. E apostou no cavalo errado.
Se os erros de Costa estão diagnosticados, o que não se refere é que António José Seguro os anteviu e que a sua estratégia protegeu o partido de cair na armadilha em que agora se encontra. Justiça lhe seja feita, Seguro percebeu dois aspectos fundamentais. Primeiro, compreendeu a necessidade de se distanciar da governação de Sócrates. A questão nunca foi pessoal (como por vezes se afirmou), mas de bom senso: era inconcebível construir uma alternativa credível e responsável enquanto se estivesse amarrado à irresponsabilidade do anterior governo socialista. Segundo, aceitou as limitações de construir uma alternativa política de centro-esquerda dentro do actual quadro europeu, onde as rupturas são impossíveis. Por isso, trocou ocasionalmente a crispação pelo compromisso, e alcançou acordos com PSD/CDS, como sucedeu em relação à reforma do IRC, em Dezembro de 2013. Só que o problema de Seguro foi que apenas ele percebeu esses dois aspectos fundamentais. Por um lado, o afastamento face ao legado governativo de Sócrates nunca foi aprovado pelo aparelho partidário. Por outro, os seus compromissos foram sucessivamente interpretados como cedências ao governo. Daí para a sua queda bastou um pulo.
Ora, por mais que António Costa seja uma figura política popular, a sucessão na liderança do PS foi mais do que uma simples mudança de nomes, rostos e estilos. Foi, no fundamental, uma mudança de estratégia – Seguro apostou mais nos compromissos, Costa afirmou-se jurando a ruptura. Aí reside o ponto: com as melhorias no país (desemprego, confiança dos consumidores, crescimento económico) e o descrédito em que caíram as soluções do estilo Syriza, a estratégia de Costa encurralou o PS quando a estratégia de Seguro tinha tudo para funcionar. É que, se a busca por compromissos (e acordos) tivesse sido mantida, seria hoje muito fácil ao PS mostrar que é possível discordar do governo e, mesmo assim, fazer parte da solução. Quem sabe, seria até possível reclamar para si parte do mérito da recuperação do país por via das reformas que resultassem desses compromissos. A confiança dos portugueses ganha-se, e esta teria sido uma boa forma de convencer o eleitorado do centro de que é possível alternar sem romper, respeitando a história do partido. É por isso que o PS de Seguro (ou o PS de Costa adoptando a estratégia de Seguro) teria, possivelmente, melhores hipóteses de vencer as eleições.
Afirmar isto não é glorificar António José Seguro. Longe de mim tal intenção, até porque muitas vezes o critiquei neste espaço. Mas, do ponto de vista dos interesses eleitorais do PS, julgo que o tempo deu razão à sua estratégia de longo prazo baseada em compromissos e que esta, hoje, seria muito mais proveitosa do que a opção negacionista de Costa. De facto, durante muito tempo, Costa foi visto como a solução para os males do PS. Mas, se calhar, tornou-se ele próprio um problema. E, agora, não se arrisca apenas a perder as eleições. António Costa arrisca-se a perder eleições que Seguro e a sua estratégia poderiam ganhar. Para quem assaltou a liderança do partido nos termos em que Costa o fez, não haverá maior derrota do que essa.
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