PREC e Alves dos Reis

Pedro Braz Teixeira
ionline 2015.08.01

O que se sabe sobre o que a Grécia poderia ter feito deve acordar os seus parceiros europeus.
Nos últimos dias tem sido revelado um conjunto de informações sobre o plano B da Grécia, que parece um misto de PREC com Alves dos Reis. 
Em Dezembro do ano passado, ainda antes das eleições de 25 de Janeiro, o futuro (hoje já ex) ministro das Finanças, o histriónico Varoufakis, planeou o regresso à dracma de forma rocambolesca. Aparentemente, o sistema informático do Ministério das Finanças seria assaltado por um amigo de infância do ministro que criaria um sistema de pagamentos alternativo. Ou seja, a Grécia sairia do euro pela porta do cavalo, sem negociações, a pior forma possível de retirada. Felizmente, Tsipras não lhe deu autorização para avançar com o plano, o que foi o melhor para todos, a começar pelos gregos.
Em Julho, um dos componentes do Syriza, a Plataforma de Esquerda, organizou uma reunião para preparar a saída forçada do euro, que previa a prisão do governador do Banco da Grécia caso este resistisse e o assalto da entidade que imprime notas. Seguindo as desvairadas indicações, as notas aí existentes (menos de metade do que os conjurados estimavam) poderiam ser usadas para importar combustíveis e alimentos de primeira necessidade.
O lado mais PREC disto tudo é que havia jornalistas à porta do hotel onde decorria aquela conspiração, a quem os políticos relataram o que se passou, como se fosse imaginável algum golpe com sucesso poder informar previamente a comunicação social. O lado Alves dos Reis consiste em quererem apropriar-se de notas emitidas, com a particularidade de o delinquente português ter agido no maior dos segredos e os seus homólogos gregos se prepararem para o imitar com o maior dos espalhafatos. Como é que lhes pôde passar pela cabeça que aquelas notas não seriam imediatamente consideradas forjadas e não aceites por ninguém?
Os disparates desde que o Syriza chegou ao poder já foram tantos que já há vários gregos, entre presidentes de autarquias, que colocaram Varoufakis em tribunal, esperando-se ainda o levantamento da sua imunidade parlamentar, podendo seguir-se novas acusações a outros políticos no governo. 
Numa primeira apreciação, tudo isto é terrível e deve ser alvo de críticas e até das perseguições judiciais referidas. No entanto, num plano mais elevado, o que se sabe até agora do que poderia ter acontecido é demasiado grave e tem de ser interpretado como consequência da situação que os dois primeiros programas de austeridade criaram na Grécia. Em geral, detesto a argumentação de que é a “sociedade” que cria os delinquentes mas, neste caso, parece-me que se aplica a ideia de que foram as circunstâncias que geraram o potencial desastre que, felizmente, nem sequer chegou a concretizar-se.
É (quase) totalmente inútil criticar severamente os ex-ministros pelo que se preparavam para fazer. É urgente que os parceiros internacionais tomem consciência de que, se os dois primeiros pacotes de “ajuda” criaram este quase desastre, então o terceiro tem condições de criar algo muito mais grave e que é bem possível que não possa ser evitado atempadamente. Por isso, é urgente suavizar as condições impostas há poucas semanas.
Em alternativa, era útil que os gregos deixassem de olhar com tanto horror para a saída do euro, ao ponto de terem feito Tsipras engolir um acordo impossível. A partir do momento em que passe a haver uma maioria a reconhecer o inevitável, este ou qualquer outro primeiro-ministro helénico já poderá negociar uma retirada em condições relativamente favoráveis. 
Parece que o programa imposto à Grécia se destina a criar esse mesmo estado de espírito, mas fá-lo duma forma arriscada, porque parece que a pretende empurrar para o desespero. O grande problema é que este é muito mau conselheiro e os desastres mais descontrolados podem acontecer em resultado disso mesmo. 
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