Sanidade

Público, 11/01/2013

Os números são importantes. Mas ainda mais importante é a realidade. Os números servem para espelhar e simplificar a realidade. Se em vez de a espelhar a ofuscam tornam-se nocivos. Quando deixamos que os números distorçam a nossa perceção da realidade passamos a viver num mundo fantástico e surreal, não no mundo real. E a isto chama-se insanidade: pensar que o que é ilusório é real. É sempre com surpresa e admiração que se observa o engenho e arte dos gestores nacionais, públicos e privados, bem como o seu esforço e empenho, em fazer com que os números não reflitam a realidade. Mas o pasmo é maior quando depois se observa que esses mesmos gestores trocam a realidade pela ilusão e começam a trabalhar para a ilusão esquecendo a realidade.
Assim, é insano o gestor que, no fim do ano, pensa que consegue melhorar a realidade da sua empresa descarregando os seus stocks nos seus canais de distribuição para inflacionar vendas e deste modo "melhorar resultados" e "evitar apertos," sabendo que dessas "vendas" nunca receberá um cêntimo e que ao "melhorar resultados" irá pagar mais impostos e ter mais apertos.
É insano o político que pensa que consegue diminuir o deficit corrente do Estado contabilizando como corrente uma receita extraordinária e não recorrente. Mesmo que Bruxelas deixe, e o número fique mais bonito, a realidade não se altera. Mas o drama é que, como o número fica catita, a realidade é esquecida. Também é insano quem supõe que pode melhorar a realidade económica do país aumentando a despesa pública "porque ela contribui para o PIB". O PIB é uma medida, útil mas imperfeita, da realidade económica; mas não é a realidade. Pode-se facilmente aumentar o PIB sem alterar em nada a realidade económica. Como? Transformando, por exemplo, um desempregado em funcionário público, sem lhe dar nada de útil para fazer. O subsídio de desemprego, uma transferência, não é contabilizado no PIB, mas o salário do funcionário público já é. Se o homem receber o mesmo como funcionário que aquilo que recebia como desempregado, o PIB aumenta mas nada se altera na realidade económica, ou no deficit público, ou no bem-estar do povo. Está-se a atuar ilusoriamente para melhorar a ilusão deixando esquecida a realidade.
A sanidade é o oposto da insanidade. É o esforço por perceber a realidade e atuar sobre ela. Para isso, os números, bem usados, ajudam.
Professor de Finanças, AESE

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