Educar a confiança

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN, 28 janeiro 2013

A confiança é uma das coisas mais frágeis, mais belas e mais indispensáveis da vida. É tão difícil ganhar a confiança! É tão fácil perder a confiança! É tão necessário ter confiança! Uma relação sólida entre duas pessoas, dentro de um grupo ou, melhor, em todo um povo, é algo maravilhoso e precioso. Só que uma vez quebrada, dificilmente recupera.
Vivemos neste momento, em Portugal e no mundo, um episódio de ruptura da confiança. Os sistemas em que nos baseávamos, as promessas que nos fizeram, as decisões que tomámos, as esperanças que tínhamos foram abalados. A cada passo vemos pessoas desiludidas, desanimadas, ofendidas, enfurecidas. Não é preciso perguntar porquê.
Tudo isto é compreensível e natural e repetiu-se ao longo da história. Hoje notamo-lo mais, precisamente porque nos últimos tempos estas crises são menos frequentes, o que torna cada uma mais notória. Antes eram habituais. O surpreendente sempre não é que aconteçam, mas que sejam raras. Afinal, a confiança é tão frágil que admira que vivamos longos períodos de estabilidade e serenidade, sempre inevitavelmente interrompidos. Esta longa experiência de crises de confiança ensina-nos várias coisas acerca delas. Dois dos traços mais graves são o exagero e a distorção.
Quem perde a confiança costuma ter a atitude comum, mas muito prejudicial, de empolar e generalizar a suspeita. Tendo sofrido um choque que rompeu a fé que tinha em algo ou alguém, é normal desanimar e desconfiar de tudo e de todos. Existe aqui uma inversão de atitude. De facto, a quebra nas certezas segue-se normalmente a um período de excesso de credulidade, em que se colocou a esperança em coisas que não o mereciam. Rompido o laço em relação às forças que falharam, é costume querer largar, ou pelo menos suspeitar, de todas as outras.
Esse exagero derrotista é sumamente irracional. Pode ser compreensível, mas só leva à autodestruição. Ninguém consegue sobreviver desconfiando de tudo aquilo que o rodeia. O desespero só conduz à morte. Após uma forte desilusão, é indispensável que se faça um esforço adicional de serenidade e discernimento. Não é fácil, mas isso impõe-se, para evitar cair em novos logros, exagerando em sentido oposto e começando a desprezar aquilo que merece respeito.
É indiscutível que as decisões políticas e económicas das últimas décadas tiveram fortes erros e enviesamentos e nos trouxeram à dívida, recessão, desemprego, pobreza e tratamento de emergência. Compreende-se o sofrimento, a dúvida, a raiva. Mas isso não é razão para suspeitar de Portugal, da democracia, dos nossos valores e cultura. Nem sequer podemos dar-nos ao luxo de duvidar dos partidos, empresas, bancos e mercados que temos. Simplesmente porque não há alternativas. A fúria é má conselheira, e arrasar o que nos rodeia descarrega os nervos, mas agrava o problema, sem resolver nada. Os povos que vencem são os que na crise mantêm confiança no essencial.
O segundo vício comum é desviar as suspeitas dos verdadeiros culpados para inocentes próximos. Pode parecer estranho, mas é frequente que os principais responsáveis pelo mal acabem incólumes enquanto, no meio da turbulência, o tempo vai desviando a desconfiança. Afinal aqueles que geraram a desgraça actuaram antes, quando as coisas ainda estavam calmas. Depois, logo que a tempestade desaba, costumam sair de cena, deixando outros carregar as culpas.
O caso português é uma excelente ilustração. Impressiona ver Passos Coelho e António Seguro serem zurzidos por cá, enquanto António Guterres, Durão Barroso e até José Sócrates estão no estrangeiro a polir a sua imagem, preparando-se para o regresso a posições de influência. O mais espantoso é que são capazes de conse- guir. Mais ou menos, são eles os verdadeiros geradores da situação de 2011, quando chegaram os actuais líderes do PSD e do PS, claramente inocentes.
Viver num clima de confiança quebrada é muito difícil, mas é então que se vê a fibra de um povo. Em épocas como esta é mais penoso, mas também mais urgente, ter serenidade e confiança.

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