Ainda o amor

Correio da Manhã, 13 Janeiro 2013
João Miguel Tavares. Jornalista (jmtavares@cmjornal.pt )

"Só que o amor anda espantosamente acossado nos dias que correm. É algo que tem vindo a cair a pique"

Posso voltar a falar de amor? Na semana passada dei-me conta de que escrevo textos atrás de textos sobre a família e a loucura que é criar quatro filhos, e me esqueço quase sempre de falar daquilo que está na base de tudo isso, e sem a qual nada disto seria possível: o amor de duas pessoas. Quem conhece esta página sabe que ela é uma coleção impressionante de desabafos e frustrações, de queixas atrás de queixas. Mas queixarmo-nos é soltar o vapor que nos consome sem sairmos do mesmo sítio. Quer dizer: protestamos, gritamos, choramos – mas permanecemos. E essa permanência só é possível se acharmos que é aqui, no meio da loucura, dos gritos e até do sofrimento, que somos mais felizes. A vida, a rotina mais cansativa, o quotidiano mais furioso, até nos pode empurrar de escarpas e penhascos, mas nós não nos afastamos, porque sabemos onde queremos cair de costas. À certeza desse lugar eu chamo amor.
Só que o amor anda espantosamente acossado nos dias que correm. É algo que tem vindo a cair a pique na bolsa de valores, perdendo terreno para a paixão, esse poderosíssimo combustível que alimentou a mais bela literatura, e onde arderam Anna Karénina, Emma Bovary ou Carlos da Maia. A distinção entre amor e paixão é velha como o mundo, e já os gregos associavam o primeiro à permanência (como no caso idealizado do amor platónico) e o segundo à intensidade. Só que as coisas complicam-se quando toda a gente passa a aspirar a uma intensidade permanente. E menos do que isso é pouco. Pior: menos do que isso é falso, como se o amor, para ser genuíno, tivesse de ser uma perpétua paixão.
Ora, esta ideia de que a paixão é o pico e o amor fica uns metros abaixo conduz a uma outra: a de que aquilo a que se chama uma relação feliz exige um acomodamento por parte do casal, que se tenta convencer de que aquilo continua a ser bom, embora já não consiga chegar ao cume. Esta é uma ideia completamente dominante à minha volta, como se o destino inevitável de todas as relações fosse a dissolução ou o conformismo. Não é verdade. O amor até pode ser o sítio em que os filmes acabam, mas a vida continua. E há gente que se continua a amar, e a ser feliz, até ao fim dos seus dias. Deixar de acreditar na sinceridade deste amor não é apenas triste. É perder a oportunidade para fazer a única pergunta que realmente importa: como é que se consegue chegar lá?

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