Como é que se estraga uma criança?
Inês Teotónio Pereira , i-online 12 Jan 2013Uma das melhores formas de escangalhar uma criança é convencê-la de que é o centro do mundo e de que sem ela a Terra parava de girar
Ora a nossa tendência para comparar as crianças com as televisões ou os carros telecomandados revela uma boa vontade e uma crença na teoria do bom selvagem que só nos fica bem. Eu acho que é mesmo assim. Os bebés recém-nascidos são todos impecáveis, o pior é quando chegam aos quartos e conhecem a família. Em princípio as crianças são todas perfeitas e somos nós, através da nossa falta de jeito, incompetência e ignorância que as estragamos, tal como acontece com um carro telecomandado mal comandado que acaba por cair por umas escadas abaixo e partir-se todo. Não é bem assim com as crianças, mas é quase.
Portanto, estragar uma criança é da nossa exclusiva competência, porque a verdade é que elas não se estragam sozinhas. E como é que isso se faz? Como é que nós que tentamos sempre fazer o melhor e já existimos há milhões de anos somos exímios neste processo complexo de estragar crianças? É fácil. Há várias maneiras de estragar uma criança e há vários níveis de estrago, que pode ir ao ponto de não haver arranjo possível ou sequer possibilidade de devolução (ninguém a atura).
Em relação às maneiras, a mais usual é o excesso de mimo. Tanto assim é que existe mesmo a expressão "estragado de mimo", tipo entrou água para o motor. E excesso de mimo não é muitos beijinhos ou muita atenção, é apenas e só excesso de caprichos satisfeitos, que começa logo, por exemplo, com excesso de colo a um recém-nascido. Um recém-nascido que passa o dia ao colo em vez de o passar deitado no berço ficará certamente um bebé todo estragadinho, ou seja, será um bebé que vai precisar de alguém com muita perícia técnica para que se consiga deitá-lo novamente no berço sem que ele comece aos gritos como se estivesse alguém a arrancar-lhe as unhas dos pés.
Outro tipo de excesso de mimo é resultado da tolerância ilimitada perante todo o tipo de asneiras e comportamentos inaceitáveis. Por exemplo, uma criança que atira um prato de comida para o chão sem que isso a prejudique posteriormente de alguma forma, sem que essa selvajaria tenha consequências dolorosas ou não, está obviamente estragada.
Outra forma eficaz de estragar uma criança passa por lhe dar a entender que é a melhor criança do mundo. E que além de ser a melhor é o centro do mundo. Que não há nada, absolutamente mais nada à face da terra que seja melhor e mais perfeita que ela. Ora esta é a maneira mais célere, duradoira e eficaz de escangalhar uma criança. Uma criança que tem como garantido pelos pais e afins que o mundo sem ela parava de girar está prontinha para ser depositada na sucata das crianças estragadas.
Estragar crianças é facílimo, difícil é mimá-las sem exagero e mostrar-lhes que são o mais importante do nosso mundo mas são apenas mais uma criança em todo o mundo.
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"Estragar a criança" é uma das melhores expressões da língua portuguesa. É mesmo a melhor de todas as que dizem respeito às crianças. Quando dizemos estragar uma criança partimos do pressuposto – que é já por si de certa forma duvidoso – de que as crianças funcionam, que elas estão, vá, arranjadas, como um carro telecomandado que vem da loja impecável ou como uma televisão novinha em folha.Ora a nossa tendência para comparar as crianças com as televisões ou os carros telecomandados revela uma boa vontade e uma crença na teoria do bom selvagem que só nos fica bem. Eu acho que é mesmo assim. Os bebés recém-nascidos são todos impecáveis, o pior é quando chegam aos quartos e conhecem a família. Em princípio as crianças são todas perfeitas e somos nós, através da nossa falta de jeito, incompetência e ignorância que as estragamos, tal como acontece com um carro telecomandado mal comandado que acaba por cair por umas escadas abaixo e partir-se todo. Não é bem assim com as crianças, mas é quase.
Portanto, estragar uma criança é da nossa exclusiva competência, porque a verdade é que elas não se estragam sozinhas. E como é que isso se faz? Como é que nós que tentamos sempre fazer o melhor e já existimos há milhões de anos somos exímios neste processo complexo de estragar crianças? É fácil. Há várias maneiras de estragar uma criança e há vários níveis de estrago, que pode ir ao ponto de não haver arranjo possível ou sequer possibilidade de devolução (ninguém a atura).
Em relação às maneiras, a mais usual é o excesso de mimo. Tanto assim é que existe mesmo a expressão "estragado de mimo", tipo entrou água para o motor. E excesso de mimo não é muitos beijinhos ou muita atenção, é apenas e só excesso de caprichos satisfeitos, que começa logo, por exemplo, com excesso de colo a um recém-nascido. Um recém-nascido que passa o dia ao colo em vez de o passar deitado no berço ficará certamente um bebé todo estragadinho, ou seja, será um bebé que vai precisar de alguém com muita perícia técnica para que se consiga deitá-lo novamente no berço sem que ele comece aos gritos como se estivesse alguém a arrancar-lhe as unhas dos pés.
Outro tipo de excesso de mimo é resultado da tolerância ilimitada perante todo o tipo de asneiras e comportamentos inaceitáveis. Por exemplo, uma criança que atira um prato de comida para o chão sem que isso a prejudique posteriormente de alguma forma, sem que essa selvajaria tenha consequências dolorosas ou não, está obviamente estragada.
Outra forma eficaz de estragar uma criança passa por lhe dar a entender que é a melhor criança do mundo. E que além de ser a melhor é o centro do mundo. Que não há nada, absolutamente mais nada à face da terra que seja melhor e mais perfeita que ela. Ora esta é a maneira mais célere, duradoira e eficaz de escangalhar uma criança. Uma criança que tem como garantido pelos pais e afins que o mundo sem ela parava de girar está prontinha para ser depositada na sucata das crianças estragadas.
Estragar crianças é facílimo, difícil é mimá-las sem exagero e mostrar-lhes que são o mais importante do nosso mundo mas são apenas mais uma criança em todo o mundo.

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