O PERDÃO DE DEUS

As pessoas, às vezes, conseguem ser muito más em grandes coisas.
É raro, felizmente.
Mas também se nota mais.
Mas as pessoas normais são mais simples e são más em pequenas ou pequeníssimas coisas, que se notam menos.
Dessa soma – e do bem que nele há – se faz o mundo e a sua perplexidade.
Em geral, quem faz o mal, apesar de querê-lo, não gosta que se saiba.
A aparência da virtude é uma velha tradição.
Mas a consciência é terrível e martela.
Estou em crer que boa parte da nossa sorumbática aparência são muitas vezes remorsos mais ou menos combatidos e silenciados.
O mal que se fez e o bem que se deixou de fazer.
A encarniçada luta contra a Igreja Católica, por exemplo, ainda releva – e quanto! –, do remorso colectivo do que um dia se fez a Nosso Senhor.
E curiosamente (ou talvez não), o que aí devia ser um urgente apelo à conversão, à oração regeneradora, ao apaziguamento e ao perdão, converte-se antes em apelo de contradição e de agressão.
Afinal, fugimos de Jesus Cristo e da Sua Igreja porque fugimos de nós próprios há mais de 2000 anos.
A contemplação serena e bela do Presépio de Belém e da Sua Estrela, nessa paz tão familiar, deve levar-nos a perceber isso mesmo: antes de pedir perdão a Deus temos de conseguir perdoar-nos a nós próprios.
E mudar de vida.
Miguel Alvim
Advogado

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