Contra factos, não há argumentos

Ema Paulino, i-online em 6 Dez 2012
       
A análise do comportamento do mercado de medicamentos em ambulatório até Outubro de 2012, divulgada recentemente pelo Infarmed, é inequívoca. Neste mês, atingiu-se uma quota de mercado dos medicamentos genéricos de 25,56%, o que representa o maior valor de sempre. Comparando com igual período em 2011, houve um crescimento de 18,4% em volume, enquanto que em valor, o segmento de genéricos registou uma redução de 20,6%. Dispensaram-se muito mais medicamentos genéricos. Dispensaram-se medicamentos genéricos muito mais baratos.
Quanto ao mercado total de medicamentos, este sofreu também um aumento em volume de 2,6%, tendo diminuído 11,8% em valor. Dispensaram-se mais medicamentos. Dispensaram-se medicamentos mais baratos.
Os encargos do Serviço Nacional de Saúde sofreram uma redução de 10,1% face ao período homólogo de 2011, apesar do maior número de medicamentos dispensados. Os doentes pagaram menos 14,3% pelos seus medicamentos do que tinham pago no ano anterior.
Tomara que todas as despesas do Estado e dos cidadãos tivessem diminuído nesta proporção.
Os objetivos de redução da despesa pública com medicamentos no ambulatório foram ultrapassados. A implementação da legislação que determina a prescrição por Denominação Comum Internacional é um sucesso. Nesta perspectiva, estamos todos de parabéns. Médicos e farmacêuticos. Indústria farmacêutica, grossistas e farmácias. Agora, há que garantir a sustentabilidade dos sistemas de produção, comercialização, prescrição, distribuição e dispensa de medicamentos. Para que o SNS e os doentes continuem a beneficiar deles.
Há propostas concretas e devidamente fundamentadas provenientes dos vários intervenientes na prestação de cuidados de saúde e na cadeia do medicamento, que defendem uma maior estabilidade dos preços dos medicamentos; que advogam uma remuneração compatível com a viabilidade económica das estruturas;  que aceitam aumentar o número de cidadãos a quem prestam cuidados; e, que acolhem uma maior responsabilização pelos resultados clínicos no indivíduo.
É esta participação responsável na (re)definição da política da saúde e do medicamento que é de salutar e promover.
Mas, por norma, em Portugal, usa-se e abusa-se da demagogia. Apresentam-se frequentemente propostas que não podem ser postas em prática, apenas com o intuito de obter popularidade e benefício eleitoral para quem as promete. Ninguém acredita verdadeiramente nelas, nem mesmo os seu proponentes. Mas num País que não tem o hábito de responsabilizar os seus dirigentes e representantes da sociedade civil pelas suas tomadas de posição e decisões, esta prática sai impune. Pelo menos do ponto de vista individual. Já do ponto de vista colectivo, saímos todos prejudicados.
Para termos um país diferente, com futuro, há que promover a erradicação da demagogia política e sectorial. Praticar tolerância zero em relação à apresentação de propostas sem fundamentos, sem análises do seu impacto, ou pelo menos, sem quaisquer dados de comparação ou benchmarking internacional.
Ontem a demagogia era inútil. Hoje é absolutamente irresponsável.
Farmacêutica

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