sábado, 14 de novembro de 2015

O golpe explicado às criancinhas

Inês Teotónio Pereira
ionline 20151114

O menino passou a escola toda a jogar futebol e a roubar bolas sempre que perdia. Não fazia outra coisa. Ele não tinha mau perder porque nunca assumia que perdia
Era uma vez um menino que queria ser chefe. Ele não tinha muitos amigos porque tinha a mania de roubar a bola sempre que perdia os jogos. Às vezes até furava a bola, outras ameaçava chamar os rufias que partiam tudo se não o deixassem ganhar. Mas apesar de os meninos não gostarem muito dele, ele dizia que queria ser chefe quando fosse grande. “Mas chefe de quê?”, perguntavam-lhe. “Qualquer coisa que dê para aparecer na televisão, viajar e mandar”, respondia. O menino passou a escola toda a jogar futebol e a roubar bolas sempre que perdia. Não fazia outra coisa. Ele não tinha mau perder porque nunca assumia que perdia. O menino era, assim, um vencedor de derrotas. E quanto mais crescia mais vontade tinha de ser chefe: convenceu-se de que era um ganhador. Estava na hora de se inscrever num partido, pensou.
E foi então procurar um partido onde pudesse inscrever-se para poder mandar, aparecer na televisão e viajar. “Mas qual partido?”, perguntaram-lhe. Ele pensou, pensou, mas fartou-se de pensar e, como não tinha jeito para fazer contas, acabou por se inscrever num partido onde não era preciso fazer contas. “Uma escola de poder excelente para quem não tem jeito para as contas”, disseram-lhe. Era a cara dele, pensou. E o menino lá foi.
Foi subindo no partido com alguma discrição durante uns bons anos. Conseguia sempre vencer eleições, mesmo as que perdia, e conseguia sempre convencer os rufias a apoiá-lo porque deixava-os partir coisas. O menino continuava a ter poucos amigos, mas também não se importava muito com isso: tinha os rufias. Tal como nos recreios da escola, conseguia ganhar sem ganhar e estava a adorar a sua nova vida. Ali, no partido, até era mais fácil e não tinha os directores e os professores da escola a castigá-lo. Os anos passaram e ele até aprendeu a roubar a bola aos rufias, de tal maneira era competente na arte de roubar a bola. As suas sucessivas vitórias nas derrotas tornaram-no importante e ele já não era o menino franzino e tímido de antigamente; era um rapaz robusto e orgulhoso das suas inúmeras vitórias sem ganhar. 
Até que um dia surgiu a oportunidade que o menino tanto tinha esperado para poder ser um chefe a sério: ele só tinha de transformar a vitória do actual chefe em derrota – coisa que passara a vida a fazer inversamente. E assim foi. Quando o seu chefe ganhou umas eleições, ele rapidamente anunciou que, afinal, a vitória do chefe tinha sido uma derrota e que ele, um vencedor, podia ganhar as próximas eleições importantes com toda a facilidade. Os amigos do menino, que ao contrário dos da escola eram parecidos com ele e não tinham jeito para as contas, acreditaram nele e o menino chegou a chefe do partido. Estava radiante. Chegou a minha hora, pensou. 
Quando vieram as eleições mais importantes da sua vida, o menino lembrou-se da sua estratégia brilhante: ameaçar que se não o deixassem ganhar, ele ia chamar os rufias e partia tudo. Ninguém acreditou que ele estivesse mesmo a falar a sério porque ninguém o levava muito a sério. E a verdade é que o menino perdeu. Os seus amigos ficaram com muita pena e pensaram que, desta vez, ele não se safava e tinha mesmo de assumir a derrota. Mas não, não ele. Ele era aquele que nunca perde apesar de perder. “Eu avisei”, disse ele, esboçando um sorriso diabólico. É então que o menino, perante o espanto de todos, resolve cumprir as suas ameaças: chamar os rufias e partir tudo. E foi assim que o menino se fez homem, apesar de não ter crescido, e chefe, apesar de ter perdido. O menino, agora homenzinho, governou pouco tempo com a ajuda dos seus amigos rufias. Governou até ao dia em que os rufias quiseram mesmo partir tudo e ele ficou sem amigos. Vitória, vitória, acabou-se a história.  
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