domingo, 14 de fevereiro de 2016

Yes, minister!

Guilherme Valente, Expresso, 2016.02.13

Editor da Gradiva questiona as opções do atual ministro da Educação, que decidiu acabar com os exames no fim do ano letivo 

De biologia, o ministro deve saber muito. Do resto, que é tudo, duvido que saiba grande coisa. A educação deve recorrer à Ciência, mas não se reduz à Ciência, tal como a vida. E a Ciência não propõe o que ele está a fazer. Os atos não revelam espírito científico. A que ciência foi buscar a ideia da inconveniência universal dos exames? 
Lembro-lhe a asserção de Marx, “análise concreta da situação concreta”. Na Finlândia, Japão e confuciana Coreia, onde a educação é vivida como uma religião, não são necessários muitos exames. 
Em Portugal, sem exames poucos estudam, menos se ensina, muitos pais deixam de acompanhar o estudo dos filhos. 
Os exames não são para “chumbar”. Conjugados com outras medidas, são para que haja cada vez mais alunos a transitarem sabendo. 
E bastaram três anos para que o resultado se visse: “Chumbos e desistências tiveram queda generalizada no último ano letivo”, (“Público”, 1/7/2015)! 
Perante esta prova dos factos o que faria um ministro animado pelo espírito científico? Aperfeiçoaria o que resultou, prosseguiria no caminho que a realidade provou acertado. 
Fez o contrário. Liquidou sumariamente tudo. Cegueira ideológica? Ou submissão ao projeto, desesperado, do quanto pior melhor? 
Foi a brincar, sem exames, que o ministro entrou em Cambridge? 
O consenso atual na educação, informado pelas ciências, é explorar, sem dogmatismo, o melhor de cada uma das várias teorias e práticas, aperfeiçoando as soluções que se revelarem mais fecundas. Exceção para o facilitismo, repudiado universalmente. Como sublinha S. Dehaene, investigador nas ciências cognitivas, verificou-se que uma exigência forte no início é benéfica para a criança. Logo no pré-escolar, onde as desigualdades devem começar a ser enfrentadas. E as crianças gostam desse desafio, e da recompensa da avaliação. A aquisição precoce de certos automatismos, na língua como na aritmética, permite libertar o cérebro para a compreensão do texto e para outras aprendizagens na matemática. Há na Europa escolas experimentais, públicas e privadas, onde as crianças já sabem ler aos quatro anos. E outras em que terminam o 4.º ano sabendo a gramática e aritmética do ciclo seguinte. 
Num exame de Matemática, uma catedrática de Coimbra começou a ouvir um sussurro na aula. Estariam a copiar? Aproximou-se e viu, atónita, que os alunos... soletravam o enunciado dos problemas! Sabe o ministro de quem é o primeiro registo confirmado de uma leitura mental? Santo Agostinho, quando observou Santo Ambrósio a percorrer com os olhos um texto... sem falar (ano 384)! 
A deficiência na leitura comprometia todo o percurso escolar. Por isso era vital um exame no 4.º ano. Em breve se verá o resultado da sua liquidação... 
No secundário a mudança deve passar por se personalizarem os percursos, para promover o melhor de cada aluno. Um secundário comum que escolarize todos, mas ofereça diversidade de percursos, que tenha em conta a variedade dos interesses, as potencialidades de cada um. Exatamente o contrário do que o ministro veio para fazer. Com o resultado no abandono escolar que se verá em breve
Na chegada a Portugal, as teorias a que chamámos eduquês apresentaram-se como novas. Não o eram. 40 anos depois são ainda mais velhas! E também entre nós foram uma experiência devastadora. 
No delírio ideológico de tornar todos iguais, cavaram um fosso maior entre os mais favorecidos e os outros. Exigência e sucesso para o ensino privado, facilitismo e miséria para o público. Grande esquerda! 
Pois são essas ideias decrépitas, fechadas à realidade e aos avanços da ciência, combatidas em todo o mundo, que o ministro terá sido encarregado de pôr de novo à solta. 
  1. Jean-Michel Blanquer, “L’école et la Vie”, Odyle Jacob, 2015 
  2. No último ano de Sócrates, 28,3%. No primeiro de Passos Coelho, 23%. Em 2014, 17,4%. Meta europeia, 10% para 2020. Saberemos em breve a percentagem em que Crato o deixou
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