quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Não quero que António Costa seja pai dos meus netos

ISABEL STILWELL |Jornal de Negócios | 22 Fevereiro 2016, 19:55

Onze horas de escola para os nossos filhos? Faz-me pele de galinha sempre que o Estado se candidata a zelador da família, substituindo-se a ela.

Queria dizer ao senhor primeiro-ministro que não quero que seja pai dos meus filhos. Nem mãe. E de caminho digo o mesmo ao ministro da Educação.
Escrevi-o em Abril de 2002, quando Durão Barroso acabou com as pausas letivas a meio dos períodos escolares, e repito-o em 2016, já com netos, a António Costa. Porque agora, como então, faz-me pele de galinha sempre que o Estado decide candidatar-se ao posto de zelador da família, substituindo-se a ela.
De que é que estou a falar? Do anúncio de que o Governo pretende alargar a possibilidade de permanência na escola dos alunos até ao 9.º ano por um período de, nada mais nada menos do que onze horas por dia. Por outras palavras a quase totalidade do tempo em que permanecem acordados.
A notícia recebeu o aplauso das associações de pais, e provavelmente de muitos pais, mesmo não associados, sem entenderem, julgo eu, a troca que o primeiro-ministro lhes propõe: trabalho mais prolongado e intenso, porque, afinal, deixa de existir a "desculpa" de que têm de ir buscar os filhos à escola!  
Cá para mim a demagogia pega tão facilmente porque é dirigida a pessoas fisicamente exaustas e privadas de sono, que procuram com dificuldade crescente articular uma vida profissional intensa e tantas vezes precária, com o desejo de serem os melhores pais do mundo, num duplo emprego que penaliza sobretudo as mães. Pais angustiados que sabem que se o dinheiro não chegar para ATL os filhos ficam sozinhos em casa ou na rua. Como se tudo isso não bastasse a situação foi ainda por cima agravada pelo adiamento da idade da reforma, que veio muitas vezes privar a família da ajuda dos avós.
Por isso, sim, soa-lhes bem a promessa, sem tomarem consciência de que quando pedem mais tempo de escola, mais atividades no recinto escolar, mais prolongamentos, mais institucionalização - pouco falta para se tornarem colégios internos -, estão a desistir de encontrar uma alternativa. E a alternativa é a única que faz sentido: em lugar de mais escola e mais trabalho, um equilibro que torne possível passarem mais tempo com os filhos. Conquistando horários mais flexíveis, eventualmente de menos horas (e já agora mais produtivas), como acontece noutros países europeus.
Mas não. Ficam de tal forma estonteados pela demagogia, que nem dão pelas contradições no discurso dos governantes do momento: que lógica tem jurarem-se dilacerados com a baixa da taxa de natalidade, se depois o que propõem é que se empreguem os bebés desde o berço, e com um horário próximo das 55 horas, que escandalizaria qualquer central sindical? E que sentido faz promoverem mais escola quando se sabe que mais escola, mesmo quando não é feita apenas de atividades letivas, equivale a piores resultados?  E Portugal bem pode prová-lo, porque, segundo a Unesco, até ao 6.º ano somos os que mais tempo passamos na escola dos países da OCDE, ainda por cima (ou por causa disso) com deficientes resultados escolares.
E que sentido faz falar à boca cheia de saúde mental, de adultos, adolescentes e crianças, se depois se promovem vidas de desencontros, em que feitos os TPC, sobram dez minutos para gritar um: "Vai para a cama que amanhã tens de te levantar cedo!"
Como dizia ao DN o investigador Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana e que há anos protesta contra uma geração sitiada na escola, sem espaço, nem tempo para correr riscos  - coisas que só se fazem com pais presentes e disponíveis -, é preciso "audácia política para pensar numa nova organização do tempo escolar, laboral e familiar". Mais audácia do que dinheiro, aliás, porque pagar a funcionários e professores para manter a escola aberta onze horas por dia, não é barato (100 milhões de euros representou o investimento na escola primária a tempo inteiro). Aliás, é tão caro que nem Costa vai tirar este coelho da cartola, muito menos com o contraditório corte no orçamento para a educação.  Mas a verdade é não haverá audácia política, nem mais nada, se continuarmos a pedir e a aceitar que seja o Estado a tomar conta dos nossos filhos!
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