quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

É menos digno quem sofre?

Raul de Almeida
Económico, 2016.02.18

Há assuntos de que não sei falar sem ser um homem inteiro, sem ouvir o coração, sem ter em conta a minha experiência de vida, esquecendo a minha fé. A nossa mundividência forja-se no que somos como um todo e no modo como apreendemos o real. Na luta política há regras, estratégias, objectivos.
Nas questões essenciais do indivíduo, recuso a artimanha, o pragmatismo frio da argumentação conveniente, a dissimulação, sim, para tal não tenho arte nem manha. É por isto que a chamada da eutanásia para o centro da agenda política me deixa com calafrios.  
Em diferentes tempos, o Partido Socialista no governo tem tido a arte e a manha de trazer para o centro da acção política as chamadas causas fracturantes, causas que dividem a sociedade, geram polémica e, acima de tudo, criam um turbilhão que distrai a sociedade do caos, fruto da absoluta incapacidade que estes senhores têm para governar o país. De caminho, agregam a esquerda jacobina, que desde a revolução francesa anseia pela destruição do modelo cultural e civilizacional judaico-cristão, e seguram a extrema esquerda que não desiste de tentar formatar o homem novo, seja lá isso o que for.
A dissimulação regressa com requintes ainda mais insidiosos que os utilizados no referendo do aborto, a que chamaram assepticamente IVG. Agora falam de dignidade na morte, falam de morte assistida. Escondem a eutanásia e o suicídio assistido. Apelam ao sentimento com a manipulação de casos limite deturpados, confundem conceitos como assistência em fim de vida e encarniçamento terapêutico, escondem ao que vêm.
Dignidade na morte, tem-na toda a gente que é digna. E mesmo os indignos, se nessa altura se arrependerem da sua indignidade.
Morte assistida, toda a gente tem direito a tê-la. Apesar de ser provavelmente dos momentos mais solitários da experiência humana, deve por isso mesmo ser um momento de acompanhamento intenso e sentido dos mais próximos, e, sempre que necessário, de assistência clínica de conforto.
Na essência desta “causa” está a doutrina actual da recusa do sofrimento. Quando se fala em dignidade, fala-se da recusa do sofrimento, entende-se o sofrimento como indigno. Não é. É parte integrante da vida. É motor de crescimento. É escala das alegrias e dos mais profundos contentamentos. Sofremos de diversas formas ao longo da vida, não devemos procurar o sofrimento, devemos atenuá-lo sempre que possível, mas devemos aprender a lidar com ele sempre que se nos apresenta inescapável.
Vivi momentos de grande dor ao lado de pessoas que se enquadrariam neste conceito. Sim, houve momentos terríveis. Sim, houve sofrimento. Sim, ouvi várias vezes “era melhor o Senhor levar-me!”. Pois, mas entre os momentos maus houve ciclos tão bons, momentos de tanta e tão intensa felicidade, cumplicidades imensas por sabermos precisamente o que era o sofrimento, prazeres exacerbados na valorização das coisas simples. Até que ao fim de alguns anos, sempre menos do que desejaríamos, percebemos que realmente chega a hora, a hora de quem vai partir, a hora dos médicos e do pessoal clínico confirmarem o que tememos e estarem à altura das circunstâncias, a hora de quem tem fé se entregar nas mãos do Pai, quem parte e quem fica.
Desta experiência, deste caminho feito de sofrimento e de profundas alegrias, fica-me a imagem e a eterna gratidão a todos os médicos, pessoal clínico e voluntários que se apresentam e proporcionam a tal dignidade, a verdadeira. Que atalham com qualidade e dedicação todo o sofrimento que é possível evitar. Sim, gostava de ver esta grande militância da eutanásia dedicada a garantir a todos os que deles necessitam, cuidados paliativos de qualidade e de fácil acesso. Mas não, patrocina-se o anátema sobre os cuidados paliativos, ao mesmo tempo que se branqueia o suicídio assistido.
Escrevo este texto na Holanda, tendo passado os dias anteriores na Bélgica. Dois países onde a morte a pedido se pratica. Tenho puxado o tema a todas as conversas com os locais e as opiniões, como é natural, dividem-se. Sinto uma enorme banalização da morte, arrepio-me com o alargamento do tema às crianças, sim, às crianças. Sinto que nestes dois países se abriu um caminho que, provavelmente, serviu para que outros vizinhos igualmente civilizados não o abrissem. É claramente experimentalismo social com os piores resultados possíveis.
Nos números que aqui consegui, no ano de 2014 registou-se uma média de 400 eutanásias a cada mês, com 5.036 mortes num ano. É para aqui que queremos caminhar? É isto a dignidade?
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