À sombra de Putin: o encontro do Papa Francisco com o Patriarca Russo Kiril

Zita Seabra
Observador 22/2/2016

Após mais de 60 anos de comunismo, o que sobrou da Igreja Ortodoxa não perdeu os traços de submissão ao poder, herança da era soviética, consentindo e aceitando viver numa espécie de clausura monacal.

O reconhecimento da importância do encontro entre o Papa Francisco e o Patriarca Russo Kiril, como um importante passo dado de aproximação de duas igrejas cristãs, suscitou algumas perplexidades e dúvidas, das quais sublinharia três: o local escolhido para o encontro, a atitude face ao conceito russo de proselitismo e o tratamento dado aos cristãos greco-católicos da Ucrânia.
O local escolhido para o encontro entre o Papa Francisco e o Patriarca Russo Kiril, uma sala do aeroporto de Havana, é tão estranho e curioso que não pode deixar de suscitar fortes dúvidas. Mais perplexo se fica ainda quando se lê no documento do encontro o elogio ao local e se lhe refere como partindo «desta ilha, símbolo das esperanças do “Novo Mundo”» (como o foi no tempo dos Descobrimentos). São palavras certamente muito mais inspiradas por Putin do que pelos chefes máximos das igrejas tão perseguidas e banidas na Ilha de Fidel, durante várias e longas décadas de comunismo e a uma sociedade ainda hoje com restrições inaceitáveis à liberdade, com as prisões cheias de dissidentes.
A questão do proselitismo é mais complexa e tem uma longa história. Sempre que os Papas tentaram a aproximação das duas Igrejas, pela simples procura de um diálogo ou de um encontro, depararam com a inflexibilidade da Igreja Ortodoxa russa. Foi assim sempre, mas mais notório desde a queda do comunismo, pois João Paulo II e Bento XVI empenharam-se muito para conseguir esse encontro e ultrapassar as diversas barreiras que não provinham fundamentalmente das diferenças religiosas entre estes dois ramos do cristianismo, mas de outros fatores, nomeadamente do reconhecimento da liberdade religiosa plena aos católicos no território da Rússia.
A Igreja Ortodoxa russa colocou sempre como condição essencial para a realização do encontro a aceitação por parte da Igreja Católica de que não faria missionação (proselitismo) em terra russa. Esta questão impediu o encontro do Papa João Paulo II com o Patriarca Alexis II, não o conseguiu o Papa Bento, embora em ambos os casos se tenham dado alguns passos (pequenos), sobretudo de intercâmbio cultural e de abertura ao diálogo, mas sempre com o a Igreja Católica, declarando que a aceitação das imposições dos Ortodoxos e das autoridades russas, significaria abdicar da sua presença livre e de pleno respeito pela liberdade religiosa na Rússia.
Seria aceitar uma legitimação da pretensão da Igreja Ortodoxa russa a ser a representante exclusiva do cristianismo e excluir assim os católicos, os anglicanos, os calvinistas ou mesmo outros ortodoxos, da especificidade do seu culto e da sua presença. Seria como aceitar, por exemplo, que, em Inglaterra, os cristãos estivessem «representados» pelos anglicanos e voltassem a declarar que o Cristianismo apenas era permitido ao seu ramo anglicano; ou outro absurdo exemplo que, em Portugal, apenas fossem aceites igrejas e templos e culto dos cristãos católicos e os restantes cristãos, por vezes tolerados, outras perseguidos como aconteceu há uns séculos. Tal conceito é obviamente o inverso do ecumenismo.
Pois, neste encontro de Cuba, a declaração conjunta vem ultrapassar a questão com uma tão estranha quanto curiosa definição de divisão territorial, dizendo: «É inaceitável o uso de meios desleais para incitar os crentes a passar de uma Igreja para outra, negando a sua liberdade religiosa ou as suas tradições.»
Vale a pena recordar, muito brevemente, que durante o comunismo a Igreja Ortodoxa russa foi reduzida a quase nada, perseguida e humilhada e dela restou pouco. Agora, com Putin renasce a conta-gotas na medida em que o poder o permite na forma em que o consentem.
Recorde-se que as brutais perseguições à Igreja Ortodoxa russa começaram com Lenine – o primeiro campo do Gulag abriu exatamente num mosteiro Ortodoxo – e continuaram com Estaline. Numerosas catedrais, igrejas e templos foram destruídos e as mais importantes transformadas em museus do ateísmo. Bispos e padres foram fuzilados, perseguidos, deportados, numa brutal repressão apenas aligeirada durante a Grande Guerra em pleno Estalinismo, por razões evidentes.
Além de museus, as igrejas e conventos foram transformadas em armazéns ou depósitos e a quase todas o poder comunista retirou o seu símbolo identitário exterior aos templos: as suas belas cúpulas douradas. A principal Basílica de Moscovo, por exemplo, onde se encontra o Patriarca da Igreja Ortodoxa, foi reconstruída por Ieltsin no mesmo local onde Estaline a tinha destruído à bomba para fazer a maior estátua do Império a Lenine, o que aliás não conseguiu porque o terreno era demasiado perto do rio Moscovo e sistematicamente atolava o pedestal da estátua. Tiveram que acabar por construir no local uma piscina aquecida com ondas para delícia da nomenclatura local e não só.
Depois da queda do comunismo, muitas igrejas por toda a Rússia foram devolvidas ao culto, e nelas foram repostas as tais cúpulas douradas símbolo maior da presença da Igreja Ortodoxa que hoje podem ser vistas facilmente por todas as cidades e mesmo em numerosas aldeias.
No seguimento da reconstrução dos edifícios e da liberdade alcançada com o fim do comunismo, tem consequência evidente um aumento do número de fieis na Rússia. No entanto, esse recrudescimento é sobretudo da população mais velha e todos os testemunhos são unânimes a dizer que não é o movimento maciço que seria expectável.
Diversos fatores contribuíram certamente para essa realidade. A Igreja Ortodoxa tem uma liturgia anterior a todas as alterações que a Igreja Católica ou as igrejas protestantes fizeram ao longo de séculos e que, no caso dos católicos, culminou com o Concílio Vaticano II. As missas ortodoxas são celebradas em russo antigo, os livros litúrgicos e a Bíblia estão em russo antigo, as missas duram horas, os padres quando se vêm estão de costas para a assistência e mantém ritos muito distantes dos fiéis.
Há, porém, outros fatores mais importantes para condicionar (muito) a liberdade religiosa na Rússia de Putin. Um deles é, sem dúvida, o facto de a Igreja Ortodoxa não ter organizações sociais de caridade e de assistência humanitária aos pobres, porque essas funções continuam a competir em exclusivo ao Estado russo. Também não tem escolas ou universidades significativas de ensino particular e diferenciado do estatal, apenas conta com escolas teológicas e de formação religiosa.
A Rússia corresponde assim ao sonho de qualquer sociedade laicista e jacobina porque a Igreja vive fechada exclusivamente no interior dos templos.
Após mais de 60 anos de comunismo, vítima da brutal repressão sofrida, constata-se que o fundamental do que sobrou da Igreja Ortodoxa não perdeu os traços de submissão ao poder, herdada do tempo dos sovietes, consentindo e aceitando viver numa espécie de clausura monacal.
Condicionados eles próprios pelo poder totalitário, a Igreja Ortodoxa russa continuou a não reconhecer que um dos fundamentos da liberdade religiosa é exatamente a tolerância e a aceitação da liberdade de outras religiões ou de outros cultos.
É certo que, por exemplo, em São Petersburgo, uma antiga igreja católica na Avenida Neveski foi entregue a Dominicanos e está aberta ao culto. Próximo, uma pequena igreja católica, junto ao palácio de Verão de Catarina reabriu, com padres do Opus Dei, mas fê-lo de forma muito específica: ocupa um edifício onde existiu uma igreja católica no tempo da czarina mas que, com a revolução, foi transformada num teatro. Agora ainda é oficialmente um teatro e a propriedade é do Estado, mas na prática é uma igreja católica e todos o sabem. Em Moscovo, encontram-se alguns dos principais movimentos dos católicos com relevo para a Comunhão e Libertação, mas sem grandes demonstrações públicas, marcando presença através de regulares iniciativas culturais com cariz religioso.
As autoridades russas reconhecem apenas quatro religiões oficialmente: ortodoxos, judeus, muçulmanos e budistas.
Mas com o isolamento internacional de Putin, com sanções decretadas pelo Ocidente em razão da invasão e guerra na Ucrânia e pressionado pela condenação internacional aos bombardeamentos de populações civis na Síria (a caminho de ser considerado genocídio), Putin precisa de aliados ou, pelo menos, de quem o receba.
O encontro de Cuba do Papa Francisco com o Patriarca de Moscovo sem dúvida que foi um passo importante no caminho da aproximação das duas igrejas, mas não pode deixar de se estranhar ainda e, por último, os termos equívocos constantes do documento assinado em relação à invasão russa da Ucrânia, país onde existem cinco milhões de cristãos greco-católicos. São muito duras as palavras a propósito, proferidas pelo Arcebispo Maior Sviatoslav Shevchuk da Igreja Greco-Romana. Diz ele: «São muitos os que me disseram que se sentem traídos pelo Vaticano, dececionados pela natureza de meia-verdade do documento, onde veem um apoio indireto da Santa Sé à agressão russa na Ucrânia.»
A história do Cristianismo é também escrita por dois mil anos de cismas, controvérsias, zangas, divisões e mesmo excomunhões. Esses cismas tiveram, quase sempre, um caráter mais geopolítico do que teológico e o ecumenismo não é sinónimo de proselitismo. É, pois, com esperança que muitos olham para os passos dados no caminho do diálogo entre católicos e ortodoxos, mas também é com evidente temor que se constata a sombra de Putin na «coisa».
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