domingo, 21 de fevereiro de 2016

A como estão os juros da dívida?

Eduardo Cintra Torres
Correio da manhã 21.02.2016 01:59 

Hoje é maior a dificuldade de os agentes do estado espatifarem dinheiros públicos nas costas dos cidadãos.

Há pequenos acontecimentos no quotidiano que nos deixam uma marca. Lembro-me como se fosse hoje de um mínimo detalhe numa qualquer viagem num táxi amarelo em Nova Iorque há 30 anos. A telefonia estava ligada e passava num noticiário um segmento de notícias económicas e financeiras. Muitas notícias sobre empresas e mercados. Era um noticiário natural. Os factos e os comentários eram compreensíveis. Fiquei espantado, porque em Portugal o noticiário económico-financeiro era esotérico e arredado das primeiras páginas e das aberturas dos telejornais. Havia apenas um jornal económico, quase clandestino. Hoje a situação é totalmente diferente. Cinco anos de crise, de troika e de dificuldades provocadas pela bancarrota de Sócrates em 2011, e pela governação de anteriores executivos, colocaram em definitivo a informação económica e financeira no topo dos noticiários e nas letras grandes das primeiras páginas. Os telejornais, nestes cinco anos, abriram com notícias sobre as finanças, juros da dívida, bancos falidos, aumento de impostos, famílias em crise, desemprego, emigração, reuniões da União Europeia, declarações do BCE, oscilações nas bolsas, agências de notação financeira, comissões parlamentares, cobertura das importações pelas exportações, impostos directos e indirectos, spread e o que mais há em inglês na língua de trapos da agiotagem institucional, balança de pagamentos, dívida de curto e longo prazo, défice, aumento ou diminuição disto e daquilo em "um ponto percentual". A literacia económica e financeira dos portugueses aumentou de forma extraordinária à custa da brutalidade da crise. Além das notícias, além dos dois diários económicos, subiram aos novos altares da elite ideológica – os estúdios de televisão – economistas, financeiros, jogadores da bolsa (têm outro nome), banqueiros, sindicalistas, e os comentadores, ora jornalistas ora especialistas, para explicar à sua maneira e interpretar a avalanche de acontecimentos nestas áreas. Apareceram programas de sucesso nos canais de informação. Hoje é maior a dificuldade de os agentes do Estado espatifarem dinheiros públicos nas costas dos cidadãos. Quanto mais literacia os cidadãos tiverem sobre estas questões, quanto mais os media derem atenção aos temas do dinheiro, maiores serão as dificuldades dos governantes, autarcas e outros decisores em vampirizar o bem público sem escrutínio. Se as maldades do mundo também têm aspectos positivos, este é um deles. Os governos já não podem agir tanto nas nossas costas. Os media tiveram neste aprofundamento da democracia um papel fundamental. ----- Sinal de alarme para os generalistas Amedição de audiências mudará a partir de Março. A visão diferida de programas através das gravações "manuais" ou "automáticas" das caixas digitais dos operadores de cabo deixa de ser encaixada na categorias "outros", que já tem este ano uma audiência superior à da RTP1 entre os 85% de lares com acesso a cabo, e é devolvida aos canais com que os espectadores contactaram. É previsível que a alteração transfira pelo menos 5% da visão de "outros" para os canais de cabo e também para os generalistas, mas mais para os primeiros, em especial os de séries e filmes. Entre a população com cabo, é previsível que os canais generalistas fiquem definitivamente abaixo das alternativas de TV paga. Os responsáveis dos canais generalistas parecem não estar a ver bem o "filme". As mudanças desta semana na Impresa, dona da SIC, foram mais danças de lugares do que mudanças, menos a reacção às sirenes de alarme do que à saída do anterior presidente. ----- 
Umberto Eco: um génio Umberto Eco (1932-2016) foi muito mais do que o autor do maravilhoso romance ‘O Nome da Rosa’. Como semiólogo, filósofo, sociólogo dos media e comentador da espuma e da lama dos dias, foi um intelectual público marcado pelo génio. Os seus textos de ontem ou de há meio século deslumbram pela inteligência, acutilância e actualidade. Ficam. 
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