domingo, 21 de fevereiro de 2016

Vale realmente a pena viver até ao fim

Filipa Ribeiro da Cunha

Já dizia o poeta francês Paul Claudel, “Deus não veio suprimir o sofrimento, nem sequer veio explicá-lo. Veio enchê-lo com a sua presença”. Eis a grande diferença entre aqueles que acreditam num Deus de amor que se fez carne e morreu na cruz para redimir a humanidade e que permanece presente entre os homens e aqueles que o negam. Mais do que discutir a existência de Deus impõe-se, como o afirmava o filósofo dinamarquês Kierkegard, saber se Ele é Amor. Pois se Deus é Amor e permite a experiência do Sofrimento, o sentido desse sofrimento será alargado.
Acompanho, como voluntária, doentes na sua fase terminal. Todas as semanas sou confrontada com o mistério do sofrimento humano. Dramático mistério que nos interpela tão profundamente! Vejo dor no rosto de alguns desses pacientes, noutros uma tremenda solidão, noutros uma vida ligada a máquinas numa aparente inutilidade, noutros uma luta para não ceder à morte que se aproxima, noutros ainda uma serenidade inexplicável. Com cada um partilho a minha mão. Permaneço. E se medicamente muitas vezes já não há nada a fazer, o facto de estar, simplesmente estar (e rezar) é profundamente transformador, certamente para mim mas atrevo-me a dizer que também para ele. Agradeço a Deus ter o dom da fé pois confirmo as palavras do Papa João Paulo II “sem a visão da fé a pessoa tem uma sensação de inutilidade do sofrimento e isto, não só desgasta o homem por dentro, mas parece fazer dele um peso para os outros”. E é precisamente esse peso que mais atormenta muitos desses doentes. Custa perder o controlo sobre a sua própria vida, deixar que sejam outros que tomem as rédeas daquilo que aparentemente julgamos ser só nosso. Mas precisamente o sofrimento terminal pode ser a derradeira oportunidade para descobrir que a vida é dada por Outro: um dom, uma doação! Vi pessoas, sem fé, que O descobriram nesses momentos terminais, não permitindo que lhes arrebatassem a vida, antes entregando-a.
É esta humanidade última que o sofrimento pode dar que me impele a afirmar que vale realmente a pena viver até ao fim.
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