terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Carta aberta ao Futebol

Francisco Guimarães
Agora Pensamos Juntos / 01 Feb 2016 

Querido futebol, 
Antes de começar esta minha reflexão, gostaria de pedir desculpa por te tratar por tu, mas, sem saber porquê, sinto-me à vontade para isso.
Todos os dias se fala de ti, a começar por mim que faço de ti a minha profissão e grande parte da minha vida, mas como este texto não é sobre mim, falemos sobre ti. Como disse, és diariamente tema de conversa, quer nos telejornais (onde a primeira notícia é sobre ti), quer nos jornais (onde és manchete constantemente) e mesmo em programas de televisão (onde toda a gente se sente à vontade para tecer opiniões). Tudo no que toca os teus assuntos parece interessar a uma sociedade geralmente desinteressada...
E tu nada fazes por este frenesim, nem agradeces pela atenção, nem repreendes por se meterem na tua vida. Por isso te pergunto, será que és assim tão importante? Será que as pessoas te conhecem assim tão bem?
Como pessoa preocupada e como treinador, tudo o que gira à tua volta me interessa e há uns tempos reparei tens uma enorme capacidade de gerar sentimentos e emoções. Ainda tens outra capacidade que eu admiro todos os dias: consegues fazer nascer beleza à tua volta. Claro que não és só tu, não te tornes egocêntrico! Se não fosse a nossa ajuda (jogadores, treinadores, árbitros, adeptos, etc..) essa beleza não era tão interessante. Mas, por outro lado, tens uma capacidade de ser rude e, muitas vezes, tornas-te desagradável. Talvez sejamos responsáveis por isso também. Mas, pela tua mestria na criação de beleza, te considero uma arte.
Como qualquer tipo de arte, há várias formas de olhar para ti, mas aquela que considero a tua mais valia, comparando- te com a pintura, a escrita ou o cinema, é que ainda consegues ser mais mediático e mais controverso e, por isso, tens um grande dever a cumprir (desculpa se estou a ser moralista, ainda por cima és bem mais velho do que eu) : tens a obrigação de ser um motivo de alegria e tens a obrigação de agradar às pessoas, pois quem te vai ver a um estádio, vai com dois objetivos - o de ganhar e o de ver um espetáculo. Todos temos sede de beleza! Aproveito para citar Arrigo Sacchi, alguém que te serviu de forma digna, que diz o seguinte: " a vitória fica marcada nos livros, mas a forma de a conseguir fica marcada nas pessoas"
Mas há um grande problema neste teu mediatismo, que não acontece tanto noutras atividades: o facto de toda a gente achar que pode falar de ti sem antes te perceber. Olhando para tudo o que já estudei sobre ti e o pouco que sei, pergunto-me: como é que se pode criticar quem te estuda a fundo? Será que isto acontece porque ainda não se percebeu que as decisões tomadas em relação a ti, são tomadas por pessoas que te estudam sem cessar e que te tentam entender e que, por isso, têm como base um trabalho que é fruto desse esforço de chegar a ti, como no caso de um treinador? Eu sei que tudo são perguntas, mas de novo me interrogo: quem tanto critica quem te serve de forma fiel, estará realmente dentro do processo? 
Não sei como é contigo, meu caro amigo futebol, mas parece-me haver uma grande preocupação com o resultado final sem se tentar primeiro perceber que ele é fruto de um processo, processo este que pode ser melhor ou pior conduzido, mas que não deixa de ser resultado de uma entrega e de um estudo capaz de levar a um conhecimento mais profundo, embora nem sempre óbvio para quem não está tão envolvido e por isso também muitas vezes menos reconhecido.
Antes de terminar, deixo uma pergunta: O Guardiola, se tivesse perdido as finais que já jogou, era um mau treinador?
A minha resposta já tu sabes! Mas os resultadistas de bancada talvez tenham outra.
Peço-te, por isso, com toda a amizade que tenho por ti, que te mantenhas belo e que continues a servir-nos mantendo-te fiel à razão porque nasceste.
É para isso que nós, os teus servos fiéis, trabalhamos...
Um abraço,
Francisco 
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