sábado, 20 de fevereiro de 2016

À morte ninguém escapa

Henrique Monteiro
Expresso, 2016.02.20

O manifesto pela despenalização da morte assistida tem como signatários pessoas que muito respeito. Não falo só do fundador deste jornal, Francisco Balsemão, mas de pessoas com quem aprendi, como Sobrinho Simões, ou outras cuja seriedade de propósitos não me passa pela cabeça pôr em causa, como Francisco George ou Paula Teixeira da Cruz. 
Toda a gente tem uma história, e eu, não tendo espaço para contar a que mais me interpela, direi que jamais seria capaz de assinar aquele manifesto, apressando-me a dizer que jamais seria capaz de assinar um em sentido contrário. Já a ideia do referendo é das mais abomináveis para mim. Um tema destes deve ser, julgo eu, tratado sem dogmas, sem preconceitos e sem alaridos. Deve contemporizar e não extremar. Ninguém é a favor da morte; ninguém defende mais a vida do que outro. 
Sobre o assunto só temos uma certeza: é que “à morte ninguém escapa”, como dizia uma cantilena da minha infância (hoje deve ser considerada traumática, como o ‘Atirei o pau ao gato’). Ora acontece que a minha disposição sobre morrer é hoje diferente do que foi ontem e deverá ser diversa da que vai ser amanhã. Não me parece que o problema seja meu. Numa reportagem estive com uma pistola apontada à cabeça e, julgando ter como única alternativa morrer ali, com um tiro na têmpora, ou andar milhares de quilómetros por África, doente e cheio de medo, preferi a primeira opção. Felizmente, como se nota, houve uma ainda melhor. Por isso sei que há alturas em que, na nossa falta de liberdade, tolhidos por forças que não controlamos, é preferível que nos “suicidem”. Não é por acaso que o chamado golpe de misericórdia (em francês “golpe de graça” e em inglês “golpe de piedade”) é comum na guerra, quando o soldado em sofrimento tem como destino a morte. É obrigação moral do camarada de armas ou mesmo do superior abreviar-lhe o sofrimento. Alguém de bom senso coloca isto em causa? 
Cada profissão, incluindo a médica, tem os seus deveres. E, não sabendo eu o que é a vida (e concomitantemente o que é a morte) paraliso na exigência de legislação. Não é uma opção religiosa ou moral. É apenas um desejo de que cada um cumpra a sua missão com regras que juntam a ética própria de cada profissional à compaixão e à misericórdia. São valores tão humanos que a frieza das leis do Estado não os comporta.
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