Regeneração da esquerda

João César das Neves
DN 20151111

Assistimos à decadência final de uma das grandes inovações políticas do início do século. A chegada de Lula da Silva à presidência brasileira em 2003 significou uma renovação para a esquerda mundial. Não apenas o Partido dos Trabalhadores tomava o poder numa das maiores democracias, mas abriu novas perspectivas numa das regiões do planeta mais exigentes.
Recusando o populismo económico e irresponsabilidade financeira de três gerações: Fidel Castro em Cuba, Hugo Chávez na Venezuela ou Evo Morales na Bolívia, Lula seguiu o antecessor centrista Fernando Henrique Cardoso, mas introduzindo programas sociais inteligentes, como a Bolsa Família. O resultado foi não só um grande sucesso para o Brasil, mas para uma nova esquerda sul-americana, combinando realismo económico com justiça social.
A novidade continuou a longa renovação da esquerda com mais de cinco décadas. Ela está ao nível da que o jugoslavo Josip Broz Tito e o checo Alexander Dubcek fizeram nos anos 1960, o francês Georges Marchais e o italiano Enrico Berlinguer nos anos 1970, o russo Mikhail Gorbachev e o chinês Deng Xiaoping nos anos 1980, o britânico Tony Blair e o americano Bill Clinton nos anos 1990. Em todos estes casos a esquerda adaptou a doutrina e a prática às realidades em intensa transformação, preservando o essencial da linha sem perder presença activa nas mutações mundiais.
"O que imediatamente salta à vista no possível acordo PS-PCP-BE é a ausência não só de solidez doutrinal mas até de programa político"
O sucesso das várias tentativas foi muito diverso, mas poucos suportaram uma degradação tão profunda e intensa como agora o PT. Afligido desce cedo por profunda corrupção, o partido sofreu em seguida por longa hesitação e grave incompetência na gestão dos choques económicos, que resultou em intenso colapso, de onde dificilmente recuperará incólume.
Enquanto o PT brasileiro declina, a regeneração da esquerda continua noutras latitudes. É na Grécia que surge a experiência mais promissora dessa área política, com o radical Syriza aceitando governar em terríveis condições económicas e financeiras. Isso forçou uma transformação homóloga à de Lula, trocando a retórica incendiária e ociosa por um pragmatismo sensato. Ainda é cedo para determinar o resultado da experiência mas dela, como de todas as mencionadas, sairá o futuro da ideologia.
Estes casos, e muitos outros que poderiam ser citados, mostram como a esquerda tem revelado um dinamismo intelectual e uma adaptabilidade política em condições muito difíceis. A exigência advém de uma solidez intelectual que a direita, por razões conceptuais, não tem. Pelo contrário, o óbice desse adversário é a forte indefinição ideológica. Enquanto a esquerda se descreve claramente pela doutrina - mesmo se em vários matizes, jacobina, marxista, trotskista, maoista, cooperativista, social-democrata, etc. -, a direita é caracterizada simplesmente como tudo o resto. Por isso inclui grupos incompatíveis e até opostos, como absolutistas, republicanos, conservadores e liberais. Só que a própria solidez ideológica da esquerda cria todas as dificuldades de adaptação que rodearam cada uma das regenerações, não apenas nas referidas destes 50 anos, mas ao longo de todo o último quarto de milénio.
A esquerda portuguesa, vinda de um passado idealista e extravagante, mostrou desde 1974 um pragmatismo e adaptação que lhe tinha sempre faltado. É verdade que temos, no PCP, o único partido relevante europeu que mantém a pureza marxista--leninista. Por outro lado, ninguém o ouve falar publicamente em ditadura do proletariado ou sociedade sem classes, tendo tentado repetidamente há 40 anos seduzir os que considera burgueses revisionistas do PS para alianças. Quanto ao BE e ao PS, a sua simples existência é prova de cedência e compromisso. O Bloco, como o nome indica, constitui uma agregação de maoistas, trotskistas, ecologistas, esquerdistas e radicais que omitem as suas diferenças para conseguir relevância. Igual variedade existe dentro do PS, desde uma social-democracia semi-liberal a um marxismo pouco moderado.
António Costa ensaia agora mais uma regeneração, aceitando a antiga proposta do PCP e até a alargando ao Bloco. Antes de o colocar na galeria dos reformadores, onde Tsipras ainda espera aprovação para o lugar ao lado de Lula, vale a pena considerar os contornos da proposta à luz das anteriores renovações.
O que imediatamente salta à vista no possível acordo PS-PCP-BE é a ausência não só de solidez doutrinal mas até de programa político. Tudo parece resultar de mero oportunismo parlamentar, o que perspectiva uma decadência ainda mais rápida do que a do PT brasileiro.
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