Sabedoria e simplicidade

Pedro Bazaliza, Alternativa e Responsabilidade, 2015.10.07

O conceito de “animal político” que leva tudo à frente deixou de personificar o modelo de sucesso na política em Portugal. Ao invés, o modelo de sucesso do futuro irá ser corporizado por quem possua fortes traços de carácter, quem é simples e modesto, quem demonstra não possuir uma agenda pessoal, quem demonstra querer levar a corrida até ao fim, e quem melhor percebe que viver em democracia implica conseguir caminhar com quem pensa diferente.
Sendo a música agora outra, o estilo durão de quem berra mais alto e o estilo messiânico de quem decretou ter de ter um lugar na história deixou de pagar os mesmos dividendos na nova melodia, sendo a afabilidade assistida pelo forte carácter e quem aceita as circunstâncias condição primeira que determinará quem mais sucesso terá. Como segunda condição temos a modéstia, pois é esta que nos permite não cair nas armadilhas, como por exemplo retirar vantagens negociais desproporcionadas quando o parceiro de negociação está mais debilitado, como pode vir a ser o caso do PS nos dias de hoje. Que se evitem as vantagens de curto prazo que poderão sair caras mais à frente.
A vida dos povos é melhor servida quando o ritmo imprimido corresponde ao ritmo de uma corrida de fundo, pelo que a arte de levar a corrida até ao fim com o menor número de percalços é condição necessária para o desenvolvimento harmonioso. Os sprints, mais talhados para o egoísta, o impreparado, e o radical, emprestam pouco e só servem para inundar de ilusão os povos, gerando a prazo frustrações de que a ressaca que vivemos é disso sintoma. Assim, e atendendo ao novo quadro político de Portugal, para que o ritmo seja de uma corrida de fundo, devem os participantes com espírito de serviço, preparado, e ponderado, ter a noção de que lhes cabe a responsabilidade de se envolverem com o outro, e, em conjunto, desenvolverem ideias com base nos seus diferentes pontos de vista. E isso é melhor conseguido se trabalharem de forma independente dos esquemas alimentados pelas suas facções e com um espírito liberto de agendas mais ou menos obscuras.
O que acima se disse não exige mentes brilhantes ou inteligências raras. Exige simplesmente sabedoria e simplicidade.
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