Por quem Sócrates nos toma?

Felícia Cabrita | SOL | 24/10/2015

José Sócrates saiu à rua, mas apenas foi à sua aldeia. Com coragem, evitou o contacto com as multidões e a livre crítica dos cidadãos das grandes capitais e esgrimiu, numa sala com um público semelhante à de qualquer programa da manhã das estações de televisão generalistas, um ataque cego à Justiça e aos jornalistas sem dizer uma única palavras sobre os fortes indícios de corrupção, entre outros, que sobre ele recaiem enquanto ex-governante deste país.
Pelo menos, nesta longa e penosa conferência, Sócrates poderia ter tido a humildade para justificar ao eleitorado que durante dois mandatos nele depositou confiança a forma perdulária como viveu estes últimos anos a expensas de um amigo. Mais uma vez optou pelo jogo de sombras a que a defesa nos habituou. Apontou erros fatais à Justiça, nomeadamente no que diz respeito à sua detenção. Ele que até tomou a liberdade de pedir para ser ouvido, diz. Quando? No dia em que tinha a viagem de regresso a Lisboa marcada e alterou variadíssimas vezes. A verdade é só tomou a decisão final após o seu advogado se ter deslocado a Paris, de o seu computador pessoal ter ido tomar café a casa de um vizinho (tentativa de destruição de provas que se manteve até quando estava preso), de ter comunicado a um jornalista, segundo a sua “narrativa” de hoje que pertence à classe dos “bons” por oposição aos que informam, que ia apanhar o avião, o que levou a SIC a estar no aeroporto e de ter assistido à detenção. Agora queixa-se? 
E terá Sócrates esquecido que durante meses os seus advogados, verberando a ausência de provas, clamavam que o processo fosse tornado público. E agora que o segredo interno caiu, mercê das suas diligências, está incomodado?
Por fim, deixou esta novidade: enganem-se os que julgam que abdicou dos seus direitos políticos. Com quem José Sócrates pensa que está a falar? Certamente com quem neste país esquece a sua enorme ambição.
Durante o tempo em que esteve sob escuta, um ano e picos, e fora da política, não fez outra coisa: conspirar para derrubar António José Seguro e a aplanar o terreno a António Costa, a quem impôs Carlos César. Por bondade, perguntarão? Não, chamem-lhe traição. Em seu entender, era mais fácil fazer a cama ao então presidente da Câmara de Lisboa voltar a ser o Primeiro de Portugal, enquanto o homem dos Açores seguiria o destino acordado: Belém. Entretanto, houve uma pequena alteração de planos.
Pelo menos, a "narrativa" de Sócrates hoje trouxe algo de verdadeiramente novo. Saiu à rua em luta aberta com o partido e com a classe política, deixando claro que há que acabar com a máxima "à Justiça o que é da Justiça e à política o que é da política".
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