Escavacar

Luciano Amaral
Correio da manhã, 20151026

A ‘maioria de esquerda’ tem de provar o que vale como efectiva alternativa. 

Já se sabe que o grande desporto nacional é escavacar o Cavaco, coisa que se voltou a dar depois de o dito cujo ter decidido indigitar Passos Coelho como primeiro-ministro. Mas a verdade é que essa decisão é a mais correcta face à Constituição e à tradição política da nossa democracia. Se o não tivesse feito, Cavaco estaria, de facto, a ratificar a tal ‘golpada’ de que tanto se tem falado. A dimensão da ‘golpada’ só se tornou clara nos últimos dias, quando percebemos que Partido Socialista, Partido Comunista e Bloco de Esquerda continuam a não passar de uma ‘maioria negativa’, uma vez que não firmaram qualquer acordo. Como muito bem disse o Presidente, neste momento, essa é uma ‘alternativa inconsistente’. Ou seja, face ao que existe, não havia alternativa. Ora, reposto o ‘normal funcionamento das instituições’, entramos no espaço da luta política legítima, em que a ‘maioria de esquerda’ tem de mostrar o que vale como efectiva alternativa. Mas também se malhou no Cavaco por, presumivelmente, ‘proibir’ os partidos de esquerda de irem para o Governo. Permito-me discordar: o Presidente não proibiu nada, até porque não pode. Apenas disse que não gostava de ver no Governo partidos que acha que colocam em causa princípios do regime que considera fundamentais (como o ‘europeísmo’) e que preferia ver o PS a viabilizar o novo Governo Passos Coelho, em nome dos mesmos princípios. Não disse que nunca indigitaria António Costa. Exigiu é que esse hipotético Governo Costa respeite os ditos princípios. Se a esquerda quer mesmo formar governo, o que tem de fazer agora é, em vez de reagir histericamente, apresentar a ‘alternativa consistente’ que lhe foi pedida e um compromisso sólido de respeito pelos princípios defendidos pelo Presidente. Não brinquemos: o Presidente foi eleito por sufrágio universal e directo, com mais de 50% dos votos expressos. Tem, por isso, um mandato numericamente superior a dois partidos que, juntos, apenas valem 19%. E tem também, por isso, direito a impor-lhes condições, em particular quando acha que podem estar em causa princípios que ele e o seu eleitorado valorizam. Em suma, a esquerda, se quer ir para o poder, que trabalhe para formar uma alternativa viável e tente um mínimo de aproximação a quem tem um inequívoco mandato democrático.
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