sábado, 24 de outubro de 2015

Um grande discurso

José António Saraiva | SOL | 23/10/2015 

A intervenção de ontem de Cavaco Silva ao princípio da noite foi das mais importantes feitas por um Presidente da República.
Não me refiro à indigitação de Passos Coelho para formar Governo: esse era o único caminho que Cavaco podia seguir, visto que têm de ser os deputados a aprovar ou rejeitar os Governos.
Caso contrário, não seriam precisos deputados – bastaria os líderes dizerem: “Eu aprovo aquilo ou reprovo aqueloutro…”.
Cada deputado tem o direito de manifestar a sua vontade na sede própria: o Parlamento.
Mas a intervenção de Cavaco foi importante porque definiu as fronteiras do regime.
Sá Carneiro, em 1979, na campanha que levaria a AD ao poder, questionou o facto de os partidos comunistas serem legais e os partidos fascistas ilegais. “Porquê?”, perguntava Sá Carneiro.
De facto, não é preciso saber muito de História para ter conhecimento de que fascistas e comunistas cometeram crimes hediondos contra a humanidade – e que entre uns e outros venha o Diabo e escolha.
Por razões que não vale a pena aqui esmiuçar, os partidos comunistas em Portugal são mais bem aceites que os partidos fascistas – que continuam a ser ilegais.
Aliás, o único preso político em Portugal é o antigo líder de um partido fascista.
Ora o que Cavaco disse ontem foi: tudo farei para impedir que o Governo de Portugal fique refém de dois partidos de ideologia comunista.
Poderia fazê-lo?
O Presidente da República é o mais alto representante do país lá fora e é quem garante o cumprimento dos tratados e alianças internacionais do Estado Português.
Sucede que o PCP e o BE são, assumidamente, contra os compromissos de Portugal na União Europeia e nas relações atlânticas.
Não é o PR que os meteu ontem num gueto – são eles que se meteram há muito num gueto ao recusarem tratados que vinculam Portugal.
Mais: eles recusam o modelo de sociedade de mercado que existe em Portugal. E apenas se dizem democratas por razões oportunistas, porque o seu ADN é antidemocrático.
Portanto, o PCP e o BE podem existir, podem fazer propaganda, mas não faz sentido que o Governo de Portugal dependa deles.
Não faz sentido que o Governo de um país da União Europeia, que pertence à NATO, que adota a economia de mercado, esteja refém de dois partidos que recusam tudo isto.
Foi esta verdade cristalina que Cavaco Silva veio afirmar ontem.
No fundo, ele disse o que todos sabemos: que não acredita que o PCP e o BE se tenham convertido aos ideais europeus, aos ideais atlânticos, à economia de mercado – e apenas dizem que sim para melhor combaterem o sistema por dentro.
O PCP e o BE são dois cavalinhos de Troia – e o Presidente da República disse alto e bom som o que todos sabem.
Sabem os que estão do lado de cá – e os que estão do lado de lá.
O estranho é o PS fingir que não sabe. E querer embarcar numa aventura que levará o país em direção ao desconhecido. 
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