A boa nova já não é boa?!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 17/10/2015

Quando algumas pessoas dizem que é necessário actualizar os dogmas e modernizar os preceitos morais cristãos, é óbvio que, embora achando-se crentes, na realidade não crêem no Evangelho, a boa nova.  Não acreditam que a doutrina de Jesus Cristo é salvadora, mas algo de que, pelo contrário, há que libertar os fiéis. Ou seja, para eles a boa nova afinal já não é boa …
Dantes, os pregadores pretendiam afastar as almas das manhas do diabo e das quedas nas tentações – os sete pecados capitais, a infidelidade conjugal, o adultério, etc. – mas agora, alguns pastores parecem mais interessados em salvar as ovelhas não do mal, mas do bem, ou seja, da lei bíblica – como a fidelidade, a indissolubilidade e a unidade matrimonial – e, até, por incrível que pareça, do próprio Cristo e da sua Igreja. Têm, da lei de Deus e da moral cristã, uma visão tão negativa que se consideram investidos na salvífica missão de redimir os fiéis pela supressão do dogma, que tolhe o entendimento, e da moral, que proíbe o prazer.
Em abono das suas pretensões, alguns destes novos pastores, animados pela mais ardente caridade mas porventura menos esclarecidos em termos teológicos, apontam para os excessos de uma pastoral aparentemente carente da mais elementar compaixão e, para eles, escandalosamente injusta. Dizem, por exemplo, que não faz sentido que a Igreja proíba um segundo casamento a quem, sem culpa, foi abandonado pelo parceiro. Que tal não se admita a quem prevaricou, parece justo, mas que o mesmo se exija ao cônjuge inocente, parece-lhes não só contradizer o mandamento novo da caridade, lei suprema do Cristianismo, mas também os mais elementares princípios da justiça. Contudo, não faltam cônjuges cristãos que, embora abandonados, vivem o seu compromisso de fidelidade, com alegria e paz nos seus corações!
Não é menos dramática a situação daqueles casais cujo filho, ainda em gestação, padece uma grave deficiência congénita irreversível. Segundo os princípios da ética cristã, é de todo proibido inviabilizar o nascimento de uma tal criança. Será que para esses pais – questionam os tais defensores de uma nova doutrina moral – uma tal notícia e a expressa proibição de abortar é, de facto, uma boa nova?! No entanto, quantas famílias católicas, provadas por essa dura experiência, dão graças a Deus pelo que justamente consideram uma bênção divina!
Ou, ainda – acrescentam – o angustiante caso dos doentes terminais, a que a moral cristã também não permite abreviar a vida, nem sequer para evitar o sofrimento terminal. Pode-se entender – insistem – que uma tal perspectiva de agonia, até que sobrevenha a morte natural, é uma boa noticia para um moribundo e seus familiares?! Todavia, onde se vive uma fé autêntica, até essas circunstâncias se convertem em ocasião de graça e de esperança, na certeza da bondade de Deus!
Sim, o Evangelho é mesmo uma feliz notícia. Para quem tem fé, a notícia evangélica não é uma nova qualquer, mas a única que é necessariamente boa, ainda que nem sempre seja fácil nela reconhecer o amor de Deus e a beleza do seu Evangelho.
Que seja boa não quer dizer que seja fácil. Os cristãos não são os que entendem os mistérios, nem os que são insensíveis à dor que, como os outros, deveras sentem. Mas são os que crêem, não apesar do dogma e da cruz mas, precisamente, graças a eles. Crer não é apenas acreditar, mas amar e comprometer-se a viver uma regra de vida que é, sobretudo, amor. A razão cristã é a lógica das bem-aventuranças, que desdenha os sofrimentos actuais na certeza dos bens futuros, de algum modo já presentes. Por isso, a vida cristã não é uma existência adiada, ou apenas prometida, mas uma felicidade já aqui e agora intensamente experimentada.
Para ser cristão, não é preciso prescindir da inteligência, nem do prazer. Uma religião que tal exigisse seria desumana e irracional. A fé não é renúncia à razão mas uma aposta e vivência de uma mais perfeita compreensão, como também a voluntária exclusão de alguns prazeres é afirmação de uma maior felicidade. Os cristãos recasados descontentes são a excepção, porque a grande maioria dos crentes são católicos casados e felizes. Desde sempre, entre os verdadeiros seguidores de Cristo, houve eminentes sábios e, sobretudo, pessoas felicíssimas. A sabedoria e felicidade dos fiéis, mesmo nesta vida, é infinitamente superior ao conhecimento e à alegria dos mais cultos e felizes pagãos.
O paradoxo do Cristianismo, a Cruz, reproduz, afinal, uma experiência recorrente: no sofrimento também há felicidade, como há uma razão de ser para a incompreensibilidade da dor. O médico, que amputa um membro gangrenado, não é um sádico, nem o doente, que se sujeita a tão dolorosa e definitiva mutilação, um masoquista. Quem libertasse o doente da penosa cura, na realidade estaria a condená-lo  à morte. O pastor que, por uma pouca esclarecida caridade, recusasse ao pecador a terapia do Evangelho, de facto estaria, com a melhor intenção, a negar-lhe a salvação.
Talvez também entre alguns cristãos e seus pastores haja, mais por via de excepção, quem ainda não tenha entendido a bondade da novidade cristã, que é de ontem, de hoje e de sempre. O jugo de Cristo é suave e leve o seu peso, ainda que alguns, por falta de fé e de caridade, o suponham opressor. Para o egoísta, o amor pode parecer escravizador mas, para quem está apaixonado, é verdadeiramente libertador.  Assim é, também agora, a boa nova do Evangelho, a única verdade que, mesmo quando é incompreensível e dói, nos faz livres, sábios e felizes no amor.
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