O regresso do Prior do Crato

Viriato Soromenho Marques | DN 2015.10.18

Num texto de leitura obrigatória para quem aspira a deixar marca positiva na política, Hannah Arendt (Verdade e Política, 1967) sublinhava que não há nada mais vulnerável na esfera pública do que a verdade factual. Isso tanto vale para os "estudos científicos" que "provavam", nos anos 60, que não existia ligação entre o fumo do tabaco e o cancro (pagos pelas companhias tabaqueiras) como para os "historiadores" revisionistas que depois dos anos 70 começaram a negar a existência do Holocausto. O problema é que se deturpamos a verdade factual desafiamos o risco de ignorar "o chão que pisamos" ou "aquilo que não podemos mudar", citando Arendt. A verdade factual, por muito que magoe as nossas convicções, não deixa de ser a única carta de marear que nos evita o naufrágio certo ao chocar contra os rochedos escondidos debaixo das nossa ilusões. Penso que me conto entre os portugueses que mais denunciaram os erros e derivas do governo do PSD--CDS, o modo como a ideologia neoliberal corporizada por Vítor Gaspar aumentou as feridas da austeridade, a incompetência na política de ciência, a falta de esclarecimento na justiça. Também condeno a irresponsabilidade de Passos Coelho na campanha eleitoral de 2011 ao prometer o que não podia cumprir. Contudo, um erro não se corrige com outro. E uma mentira não se transforma em verdade se usar a anterior mentira do oponente como desculpa. Em 4 de outubro António Costa (AC) foi o grande derrotado das eleições. Rui Tavares apelou antes das eleições a uma frente de esquerda, e todos se riram dele. A miraculosa aliança de esquerda que AC agora oferece não foi votada pelos portugueses (nas sondagens só 36% a preferem contra 52% que defendem uma solução construída em torno da coligação de direita e do PS). É incompreensível dizer como o faz AC, que o novo governo respeitará os "acordos internacionais". Portugal precisa de mudar o Tratado Orçamental se quiser sair do pão e água, mas isso terá de ser feito por quem saiba lutar dentro da zona euro, e não por quem queira sair dela com os punhos erguidos. Para servilismo perante as regras do jogo, a coligação oferece mais garantias... Portugal está exangue, mas pode ainda ficar pior, como o exemplo grego o mostra num outro registo, se trocarmos a verdade dos factos pela ambição menor de quem parece não ser capaz de aceitar uma derrota. Nesta hora de angústia nacional, Portugal precisaria de uma nova dupla mágica, como a do Mestre de Avis e Nuno Álvares em 1383. Infelizmente, a poeira no caminho para São Bento está a ser levantada por um bizarro tropel de órfãos do assalto ao Palácio de Inverno, comandados por um avatar do António Prior do Crato. Portugal precisa de tudo, menos de ser humilhado outra vez, como o foi pelo duque de Alba na Batalha de Alcântara, em 1580.
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