O tempo da política

RR on-line 17 Out, 2015 • Eunice Lourenço

Os jogos políticos são arriscados. Quando, ainda por cima, são também jogos de sobrevivência são ainda mais arriscados. E este jogo ainda está longe de terminar.
O problema dos tempos interessantes é que são tempos de incerteza. E todos nós gostamos de segurança, de hábitos e rotinas que dêem alguma previsibilidade aos dias.
Tivemos eleições, temos de ter Governo, já o queríamos ter e ainda nem sequer sabemos quem vai ter mandato para o formar, nem quanto vai durar. Já quase nos tínhamos esquecido de como se faz política e o que vivemos são ainda os dias da política e estão aí para durar e para continuar a dar muitos motivos de conversa, de indignação, de irritação, de preocupação …. e é bom que assim seja, que se discuta política neste país como há muito não se fazia, é bom que as pessoas percebam as consequências todas do seu voto ou da sua abstenção, que olhem para o sistema político como algo em movimento.
O que estamos a viver é um jogo político. Interessante e arriscado, como todos os jogos. Ainda mais arriscado porque também é um jogo de sobrevivência, da sobrevivência política de António Costa. E ainda mais interessante porque tem a ver com a vida de todos nós. E é um jogo que não tem resultado final garantido. Essa é outra novidade dos tempos que vivemos. Tendemos a olhar para o jogo político como um jogo combinado, com um resultado pré-definido em que os jogadores se limitam a fazer um teatrinho obrigatório até chegar ao desfecho que antevíamos logo de início.
A meio do jogo
Um dos problemas é que o jogo ainda está longe de terminar e o árbitro pode não estar à altura dos jogadores. António Costa tinha dito, no início da semana, que esperava ter uma solução para apresentar ao seu partido até ao fim desta semana. Não tem, a comissão política do PS que foi suspensa continua por remarcar e, esta sexta-feira, admitiu, em entrevista à TVI que “é prematuro” dizer, neste momento, que o diálogo com o PCP e o Bloco vai acabar bem. E as conversas com a direita, também suspensas, ainda podem regressar.
Esta sexta-feira foi, aliás, importante para mostrar como este jogo ainda vai a meio. Mesmo à esquerda – onde o PS insiste em dizer que há condições – foi notório que andam a falar de coisas diferentes e está longe um acordo para um Governo do PS com apoio do BE e do PCP. E tem de ser dos dois, porque um não chega.
Cavaco Silva, entretanto, marcou audiências com os partidos para terça e quarta-feira. E das duas uma: com o actual cenário, ou indigita Passos Coelho como primeiro-ministro ou pede aos partidos para continuarem a conversar. A não ser que o Presidente tenha uma qualquer surpresa na manga, como teve no Verão de 2013 (e não lhe correu bem). Pode o Presidente surpreender como António Costa surpreendeu ao não se demitir na noite eleitoral? Ou como Jerónimo de Sousa ao aceitar dialogar, pondo de lado os assuntos em que nunca chegará a acordo com o PS?
A fasquia das surpresas está alta neste jogo em que a coligação se mantém a meio do campo, a jogar no empate, sem arriscar, por enquanto, uma jogada de mestre que vire o jogo. O “documento facilitador” que entregou ao PS, para além de generalidades e manifestações de abertura, só tinha medidas previsíveis. E só tinha objectivos imediatos: a viabilização do programa de Governo e do Orçamento do Estado para 2016.
A questão da confiança
Neste jogo ainda sem resultado garantido, António Costa joga a sua sobrevivência política. Claro, que, como ele próprio já disse, dificilmente deixará de fazer política na vida. Para Costa, como para Santana Lopes ou Paulo Portas, serão sempre prematuras as notícias de morte política. Mas, com uma derrota nas legislativas e uma previsível derrota nas presidenciais, terá vida difícil num congresso em Fevereiro. A não ser que seja primeiro-ministro.
A vertigem do poder e da história pode inebriar e António Costa pode já ter ido longe de mais, tanto no jogo à esquerda, como na vontade de humilhar a direita. Repete quase todos os dias que a coligação tem de ser humilde e perceber que o quadro político mudou, mas não parece ele próprio ter tirado lições do seu resultado eleitoral.
O líder socialista - que sustentou a sua campanha no lema “Tempo de Confiança” - não conseguiu conquistar a confiança da maioria dos portugueses, tem uma boa parte do seu partido desconfiado dos resultados das negociações com a esquerda, uma bancada parlamentar onde podem surgir dissidentes, tem muitos eleitores descontentes e um país angustiado com o resultado do jogo.
António Costa – o grande derrotado da noite de dia 4 - é o jogador central dos tempos que correm e ainda acredita que pode ser o grande vencedor. O pior que pode acontecer é ganhar o poder, depois de ter perdido o país.
Mas o que é mais provável que aconteça é que Cavaco Silva acabe por dar posse a Passos e Portas, António Costa viabilize o Governo e negoceie o Orçamento e, ao mesmo tempo, continue a conversar com a esquerda, mantendo sempre a ameaça de, a qualquer momento, poder ter uma alternativa e derrubar o Governo. E assim iremos andando até Março ou Abril...
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