terça-feira, 20 de outubro de 2015

E se as eleições fossem hoje?

António Costa
SAPO24Crónicas, 2015.10.19
 António Costa está há duas semanas em modo de sobrevivência, põe em causa um sistema que dura há 40 anos e que permite que o partido mais votado forme governo, mesmo em minoria, e negoceia à Direita (!) e à Esquerda como se fosse tudo igual. Perante esta sucessão inaudita de eventos, se as eleições fossem hoje a coligação reforçaria a sua votação para mais de 41%, no limiar da maioria absoluta, de acordo com uma sondagem da Intercampus para a TVI. E se Costa formar um governo dos derrotados?
Costa é mestre dos bastidores, sim. Já foi no PS, está agora a liderar um processo e a deixar Pedro Passos Coelho e Paulo Portas para trás. Surpreendentemente. Foram ultrapassados nas negociações, não impuseram uma agenda política e, agora, quase parece que são eles, a coligação, a rejeitar um Bloco Central alargado. Não são, mas isso não é evidente, mérito de Costa. Já justificou não ter apresentado a sua demissão no dia da derrota eleitoral perante aqueles que tinham a vitória socialista como garantida, já ganhou mais umas semanas de vida política, até já se livrou de António Sampaio da Nóvoa.
A troca de correspondência entre a coligação e o PS dizem-nos o suficiente para percebermos o que quer Costa. De outra forma, seria difícil perceber qualquer entendimento, mesmo mínimo, do PS com dois partidos que têm uma montanha a separá-los, o Tratado Orçamental e o euro – e as reuniões ‘interessantes’ que mantiveram. Ao invés dos encontro inconclusivos e vazios com a coligação. Claro que ninguém quer ficar com o ónus do divórcio depois do romance epistolar.
Portugal vai ter um novo governo esta semana, sim. Cavaco Silva vai dar posse ao líder do partido mais votado, Passos Coelho, e vai passar para Costa a responsabilidade de deitá-lo abaixo no debate sobre o programa de Governo.
As cartas estão lançadas e, quase, marcadas. Se António Costa já deitou fora um entendimento com a coligação, por vontade própria, está muito longe de poder assegurar um governo estável de Esquerda. Pela natureza das coisas. Basta avaliar as condições impostas pelo BE e pelo PCP para percebermos a impossibilidade de um acordo consistente. Um acordo que permite reequilibrar as contas públicas. Ponto. Pelo contrário, essas condições serviriam a passagem de regresso da ‘troika’ a Portugal.
O secretário-geral do PS poderia, e deveria, ter seguido uma terceira via. Não precisava de entrar no Governo, não precisava de aliar-se a uma Esquerda que não deixou de ser radical. Poderia e deveria ser a oposição exigente que o país precisa. Mas para ser ‘só isso’, teria de ter saído depois de falhar todos os objetivos? Pois, está aqui a explicação para esta estratégia.
Costa alarmou o país, denunciou esqueletos no armário sem os identificar. Lançou a confusão, disse que eram graves. Só não disse se, pela sua gravidade, permitiriam aplicar o seu programa, mais ainda somado aos programas do BE e do PCP. Em que ficamos? A situação económica e financeira do país está longe ainda de estar estabilizada, sim. O gelo está fino, E por isso é que esta deriva frentista é um risco enorme. Para o país, para o PS e para Costa. Por esta ordem.
Até onde António Costa vai levar a sua estratégia? Jogará tudo na estratégia de vir a ser primeiro-ministro por admitir que, com eleições a curto prazo, terá mais condições para ganhar, mesmo ou sobretudo se vierem a realizar-se a curto prazo. Engana-se, se seguir este caminho.
Se António Costa formar um governo dos derrotados, legítimo do ponto de vista constitucional, mas moralmente ilegal e politicamente inconsistente, as próximas eleições serão um passeio para Pedro Passos Coelho.
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