As mensagens dão-me cabo das relações
Ana Rita Guerra | 29/04/2014 | 00:00 | Dinheiro Vivo
No outro dia, estava a explicar a uma amiga porque é que me afastei de uma pessoa com quem tinha combinado ir jantar – antes de ir jantar. Pessoalmente, dava-me bastante atenção; mas depois, o seu "comportamento digital" não era coerente. Não só demorava um ou dois dias a responder a uma mensagem, como o fazia muito depois de a ler.
Sendo verdade que nem toda a gente anda agarrada ao smartphone 24 horas por dia, também é verdade que a maioria das pessoas não o perde de vista em 90% do tempo (está estudado). E sendo que essa pessoa tem um iPhone, a hipótese de passar dois dias sem ver uma mensagem é um pouco remota. Estamos a falar de mensagens de Facebook e iMessage: ambas as plataformas revelam exactamente a que horas a mensagem foi lida. Ora, esperar um ou dois dias para responder pode ter várias explicações, mas sinaliza falta de interesse em manter a comunicação a fluir. E, nesse caso, será que vale a pena insistir? Se o comportamento se arrasta por semanas, como aconteceu neste caso, concluí que não.
Ao explicar este raciocínio, apercebi-me de como se tornou difícil gerir relações precisamente por causa das ferramentas que facilitam o seu início. Obrigadinha, Facebook, por me dizeres que aquela pessoa leu a minha mensagem e não me respondeu. Isto é o "recibo de leitura" dos telemóveis de antigamente levado ao extremo. E quando se trocam mensagens via iMessage e se vê que a pessoa ia responder, mas acabou por não dizer nada? Pronto, aí vem uma enchente de tentativas de explicação e pensamentos inúteis sobre isso.
Quando eu era miúda, e nem toda a gente tinha telefone em casa, manter as relações exigia um esforço real: ia até à porta de casa, tocava à campainha e perguntava: "a Patrícia está?". Se estivesse, porreiro. Se não estivesse, azar. Fica para a próxima.
Depois vieram os SMS e todo um mundo de desencontros se reduziu. Alguém não responder a um SMS não era assim tão grave – não viu, está no silêncio, não tem saldo, tem a memória cheia, não tem rede.
Hoje é preciso ter tantos cuidados que só pensar nisso arrepia. Temos à disposição imensos meios de comunicação imediata, e aprendemos a categorizar as pessoas conforme a sua relação com o smartphone. "Fulano anda sempre agarrado ao iPhone", "sicrano não larga o Galaxy", "não, aquele é da velha guarda e prefere viver offiline." Gerimos expectativas de acordo com estas caracterizações. Não é de loucos?
Conheço relações que acabaram porque alguém descobriu que o outro tinha cinco ou seis "parceiros" de mensagens – pessoas com quem mantinha conversações gigantescas por WhatsApp, Facebook ou SMS, às vezes de teor problemático (que é como quem diz, bolinha vermelha), mesmo sem ter havido contacto físico inapropriado. Esta gratificação instantânea, estes contactos que muitas vezes são só digitais, danificam relações reais. Bem, e nem sequer vamos falar das relações que acabam por SMS, que também as há (o que, ainda assim, continua a ser melhor que o caso recente de um rapaz que terminou o namoro com uma hashtag no Instagram).
E como é impossível voltar para trás, só se pode tentar lidar melhor com esta nova forma de construir relações. Desligar o telemóvel e ir "tocar à campainha" pode não ser uma hipótese. Mas há que aprender por tentativa e erro.
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