Uma comunidade incapaz de lidar com o desacordo está mal preparada para o futuro

Timothy Radcliffe
In Imersos na vida de Deus, ed. Paulinas (SNPC)
29.05.14
Os primeiros discípulos falaram com ousadia, assim nos diz Lucas (Atos 9, 29; 14,3). Esta é a parrhesia que Simon Tugwell define como «ser capaz de dizer tudo e qualquer coisa». As nossas Igrejas estão cheias de palavras: inumeráveis documentos, escritos de orientação, declarações episcopais, dissertações teológicas, sermões, artigos eruditos, crónicas jornalísticas. Mas nem sempre existe um discurso aberto em que digamos aquilo em que mais profundamente cremos, partilhemos as nossas dúvidas e receios e abramos os nossos ouvidos a visões diferentes das nossas. Santa Catarina de Sena deu aos cardeais que estavam com o Papa exilados em Avinhão um bom raspanete: «Deixai de estar calados. Gritai com cem mil vozes. Vejo que o mundo é destruído pelo silêncio».
A Igreja deveria educar os crismados a falar bem, abertamente e com confiança. Não se trata de dizer a primeira coisa que nos venha à cabeça. Todo o cristão confirmado deveria receber um treino teológico básico, um conhecimento das Escrituras e dos ensinamentos da Igreja. A Confirmação foi, muitas vezes, associada à idade da razão e precisamos de ser ensinados a pensar bem e solidamente acerca da nossa fé, a crescer numa confiança que, embora vá além do que conhecemos pela razão, nunca é irracional.
O teólogo americano Robert Barron disse que, ao visitar a sobrinha que se preparava para a universidade, ficou impressio­nado com os volumosos tomos que ela estudava sobre Homero e Shakespeare, e com os livros sobre Física e Química avançada; mas quando lhe perguntou pelos seus livros de Teologia, ela mostrou-lhe uma publicação com ilustrações, apropriada para uma criança de dez anos. Ele, então, saiu dali a correr e foi comprar-lhe um exemplar da Summa contra Gentiles de Tomás de Aquino, em latim! Conta-se acerca de Louis Pasteur, o famoso cientista, que «ele tinha a fé de um camponês bretão». Comenta Donald Nicholl: «Embora fique muito bem a um camponês bretão ter a fé de um camponês bretão, não é realmente louvável que um cientista moderno tenha um fé idêntica». Disse o papa Paulo VI: «O mundo está desorientado devido à falta de pensamento». Assim é, e também o está, muitas vezes, a Igreja.
Diz Jesus: «Quando vos levarem para serdes entregues, não vos inquieteis com o que haveis de dizer; dizei o que vos for dado nessa hora, pois não sereis vós a falar, mas sim o Espírito Santo» (Marcos 13,11). Porém, preparamo-nos para estas palavras espontâneas, estudando e orando, tal como um jogador de ténis pratica durante horas, a fim de jogar de forma fácil e natural. Precisamos de ser ensinados no modo como defender a nossa fé de uma forma racional, inteligente, como adultos. É assim que nos abrimos aos dons do Espírito, da sabedoria, da ciência e da inteligência. Consta que quando o teólogo dominicano Herbert McCabe tinha seis anos, a sua mãe o repreendeu por uma malandrice que ele fizera. Disse ela: «Agora foste um menino muito ruim. O que fizeste foi tão mau que até poderia ser um pecado mortal.» E, supostamente, o jovem Herbert terá replicado: «Mãe, isso é impossível. Não posso cometer um pecado mortal até chegar à idade da razão. Segundo a Igreja, isso ainda não acontece aos seis anos. Portanto, o teu raciocínio é errado.»
Exige-se tempo para que as pessoas encontrem as suas vozes, sobretudo se não estão habituadas a falar. É provável que falem de modo bombástico e tomem determinadas atitudes, que façam pretensões ridículas e, em geral, mostrem a sua ignorância. A solução não é silenciar as pessoas - tal é a reação de Satã -, mas ajudá-las a encontrar as palavras para aquilo que buscam. Numa comunidade dominicana, uma das regras do prior é ajudar os que têm coisas desagradáveis para dizer a encontrar o melhor modo de as dizer, sobretudo quando discordam dele! Estamos ao serviço do Espírito de amor, quando ajudamos os outros a expressar os receios, as reservas e as hesitações que sentem, e sobretudo quando não são as nossas. Quando eu era Mestre-Geral da Ordem Dominicana, havia apenas uma regra nas discussões do Capítulo Geral. Podíamos discordar uns dos outros, tanto quanto quiséssemos, contanto que nunca puséssemos de lados as visões dos outros como absurdas ou contrassensos. Uma pessoa é rebaixada e humilhada, se as suas conceções forem ignoradas e postas de lado.
Se a Igreja há de tornar-se uma comunidade de adultos e crescidos, então não devemos recear demasiado que as coisas fiquem fora de controlo. Quando as pessoas tentam encontrar a sua própria voz e partilhar alguma nova ideia, é muito provável que elas, a princípio, não encontrem as melhores palavras e façam até afirmações claramente erradas ou, inclusive, contrárias à nossa fé. Mas, mais do que premir o botão do pânico, precisamos de descobrir, com paciência, a nova ideia que está a tentar vir à luz. O Espírito Santo foi derramado na Igreja, no Pentecostes, e por isso ela não ruirá só porque algumas pessoas se extraviaram um pouco na sua busca da verdade. O Judaísmo ensina-nos que devemos prestar atenção à visão da minoria, mesmo se a rejeitarmos, porque talvez, algum dia, a sua sabedoria seja necessária. Uma comunidade que é incapaz de lidar com o desacordo e impõe a uniformidade estará mal preparada para o futuro.

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