A morte de Humberto Delgado

Joaquim Silva Pinto ionline 2014.05.17
parte I
Mesmo quando tenha autorizado rígidas acções repressivas, Salazar nunca o fez com jactância de ditador ao estilo de Hitler ou Mussolini, mesmo de Franco, dos regimes fascistas, ou de Lenine e Estaline, do lado comunista
A morte de Humberto Delgado foi um dos momentos mais obscuros do longo consulado de Salazar e conjuga-se mal com a personalidade deste, que era avesso à brutalidade. Mesmo quando tenha autorizado rígidas acções repressivas, nunca o fez com jactância de ditador ao estilo de Hitler ou Mussolini, mesmo de Franco, dos regimes fascistas, ou de Lenine e Estaline, do lado comunista. Era subtil e discreto. Nessa medida, será de perguntar se o presidente do Conselho teve interferência directa na eliminação de Delgado por agentes da PIDE ou se estes agiram por iniciativa do respectivo comando. Não esqueçamos que Salazar tivera o general como elemento da sua confiança pessoal na Legião Portuguesa, que consistia na extrema-direita do regime, que o fizera director-geral, que o enviara como adido militar para a embaixada em Washington, para lhe enriquecer o currículo com o objectivo de, no regresso, o nomear secretário de Estado da Aeronáutica. Duvida-se de que o tivesse mandado matar, apesar da raiva provocada pela agressiva reacção de Delgado quando, ao pretender a nomeação de governador de Angola, após recusar entrar para o executivo como secretário de Estado, soube que Salazar dissera ao ministro da Defesa: "Quer desencadear o processo de independência da província (colónia), como anda por aí a propagar? Falou a tempo; voltou estragado dos EUA, onde não sabemos com quem andou a reunir." Era uma insinuação de traição, quando o que pretendia Delgado era encontrar a tempo uma solução a favor do país e de quantos portugueses se sentiam luso-angolanos, consciente de que não se dispunha do acolhimento internacional, concretamente da NATO e do poderio político-militar americano, para persistir no sonho do Portugal uno e indivisível que Salazar acalentava. Deu-se o rompimento, com recados duros de parte a parte. Disso se aproveitou a oposição democrática, desejosa de se distanciar da candidatura pró-comunista a Belém, que foi convidar Delgado para ser uma alternativa credível ao misantropo almirante Américo Tomás, no atribulado processo de sucessão do general Craveiro Lopes, que Salazar decidira não reeleger, com o veemente parecer contrário de Marcello Caetano, na altura ministro da Presidência. Foi um acerto político por parte desses republicanos, democratas e laicos, liderados por individualidades respeitáveis, a maior parte das quais com êxito nas universidades, profissões liberais e negócios de monta. Bons burgueses, como os considerava o PCP; opositores do costume, como ironizava Salazar. Não eram elementos destabilizadores, muito menos arruaceiros. Ficaram inclusive atónitos quando Delgado, em conferência de imprensa, proclamou sem hesitação ao referir-se a Salazar: "Se for eleito, obviamente, demito-o." Foi um escândalo na pacata sociedade portuguesa, motivo de alarme ou de esperança consoante o posicionamento de cada um. A partir daí, o PCP remeteu o candidato próprio a um apagado percurso de circunstância para alinhar, com a sua habitual eficiência, no apoio à candidatura do general. Todavia, com a sua fortíssima personalidade, Delgado impôs um estilo de campanha ao jeito americano que caiu bem no eleitorado e deu lugar a banhos de multidão entusiásticos. Salazar, ao mostrarem-lhe uma fotografia do candidato a discursar em cima do tejadilho de um automóvel, desabafou: "Nunca pensei ver um general a comportar-se como se fora macaco." Custava-lhe perceber que se tinha criado em Portugal um novo estilo de comunicação política.
Joaquim Silva Pinto ionline 2014.05.17
parte II
Delgado abandona o país e refugia-se no núcleo oposicionista residente na Argélia, onde cedo se sente mal-amado e sujeito a uma ostensiva marginalização. Acaba por decidir regressar. Mas em que condições?
PERMANECE A GENERALIZADA convicção de que, a não ter havido comprovados desvirtuamentos na elaboração dos cadernos eleitorais e mesmos chapeladas nalgumas mesas de voto, Delgado seria eleito Presidente da República por margem folgada. Contudo, importa não esquecer que a desusada afluência às urnas ficou a dever-se também a eleitores habitualmente não participantes se terem mobilizado receosos dos ventos de mudança, que Delgado prometia em nome da democracia e da liberdade, palavras preocupantes para os adeptos do predomínio da estabilidade, ou, como agora alguns gostam de dizer, da protecção da confiança, que serve para preservar direitos, mas também mordomias e interesses criados. Tomás até podia ter sido eleito com o excelente resultado de 55% a 60%, só que num regime autoritário o reconhecimento, dentro e fora das fronteiras, de uma numerosa oposição constitui para quem está no poder um sinal de fraqueza. Fosse como fosse, Delgado após as eleições para Belém cai em desgraça no contexto da denominada "situação". Marcelo é afastado do governo, embora venha a ser eleito presidente da Câmara Corporativa a par de ser reconhecido como o mais prestigiado professor de Direito. Entra-se, para não mais se sair, numa fase de involução política. Salazar fecha--se numa atitude defensiva, de que resulta a alteração do processo de escolha do chefe de Estado, que deixa de ser por sufrágio directo, e um cariz mais conservador, diria direitista, na composição dos governos. Delgado abandona o país e refugia-se no núcleo oposicionista residente na Argélia, onde cedo se sente mal-amado e sujeito a uma ostensiva marginalização. Acaba por decidir regressar. Mas em que condições? Viajando clandestino na companhia única da sua secretária e namorada de circunstância, pretendendo entrar em campo aberto junto à fronteira menos concorrida do Alentejo. Quem lhe terá alimentado o sonho utópico de que seria recebido por correligionários, que o conduziriam em triunfo de Beja ao Terreiro do Paço, engrossando-se gradualmente o movimento, como em 1926 outro general viera de Braga a Lisboa para deitar abaixo a Primeira República? Pergunta de difícil resposta. O general, que se auto-intitulava Sem Medo, fora na realidade um intrépido aviador, demonstrara durante a campanha presidencial arrojo até dizer não, mas era um oficial superior, ex-director-geral, adido da embaixada nos EUA, dirigente de uma força paramilitar como era a Legião Portuguesa. Não é fácil acreditar que uma pessoa com tal curriculum tenha cometido a imprudência desse peculiar regresso a Portugal se não se lhe garantissem condições de sucesso. Então quem o terá enganado, empurrando-o para uma prisão previsível, que afinal os agentes da PIDE transformaram em assassinato? Quem avisou a polícia de Estado da data e do local da pretendida reentrada? Houve telefonemas, telegramas, ou no grupo de Argel estava infiltrado um informador? Chega a ser patético visionar o general e a sua companheira, inicialmente animados ao ir ao encontro de três cavalheiros que os esperavam, supondo serem emissários dos apoiantes concentrados do lado de lá da fronteira, para só depois compreenderem o logro, caindo mortos sob as balas dos agentes. A corrente marcelista foi severamente crítica logo que começaram a fazer-se ouvir rumores da ocorrência. Mais tarde, já eu aderira a esse grupo de referência, participei num encontro ocasional com um elemento da extrema-direita, que relatarei na próxima semana.
Joaquim Silva Pinto ionline 2014.05.17
parte II
Conheci Delgado, ainda eu era estudante, vinha de Washington visitar um amigo que nos convidara para o almoço. Impressionou-me vivamente a sua personalidade e transbordante simpatia
Num ambiente de acalorada discussão, esse retrógrado cavalheiro sustentou que a morte de Delgado havia resultado de um acidente, quando, sob ordem de prisão, o general levara a mão ao bolso interior do casaco, talvez para exibir a sua identificação de oficial superior, pensando os agentes que iria puxar por uma arma. Com isso pretendia ter-se tratado de legítima defesa. Alguém lhe terá respondido que mesmo a ser assim a morte da secretária fora a sangue-frio para lhe calar o testemunho. Mas era esse o discurso oficioso que se pretendia divulgar como falsa verdade. Deixemo-nos de fantasias: Delgado foi assassinado. Contudo, impõe-se uma nova pergunta de difícil resposta. A quem aproveitaria politicamente essa opção radical, que mais cedo ou mais tarde seria conhecida para desprestígio internacional do regime? Salazar, num discurso proferido no salão nobre da Assembleia, entre os aplausos de deputados, procuradores à Câmara Corporativa, bem como das repletas galerias, não hesitou em dizer sem lhe tremer a voz: não seria a nós que interessaria eliminar Humberto Delgado. Insinuava que o propósito fora detê-lo. Disse-o por estratégia desculpabilizante ou estaria na sua habitual forma ambígua de mandar recados a criticar elementos da extrema--direita, que por receio de Delgado vivo se transformar numa bandeira destabilizadora, pelo seu prestígio e grande popularidade, decidissem resolver drasticamente e por conta própria o que entendiam ser contra o interesse nacional, concretamente contra os seus interesses pessoais? Tanto poderia ser a ala mais reaccionária do governo, como responsáveis da Legião Portuguesa, que não perdoassem a Delgado a sua evolução política, como ainda a própria PIDE, como polícia de Estado. Fleming popularizou que no democrático Reino Unido os agentes 001 a 008 matavam em nome do rei, sem que este ou o seu primeiro-ministro se inteirassem do alvo a abater, muito menos da forma escolhida para o fazer. Não andaria longe da verdade. Em França, o correspondente departamento policial gaba-se da sua autonomia decisória. Passar-se-á o mesmo com a CIA? O mistério da morte de Delgado tem assim duas componentes, que formulo como perguntas de difícil resposta. Quem enganou o general e quem o mandou alvejar? Talvez o leitor consiga averiguar junto dos membros do grupo de Argel que ainda estão vivos o que podem esclarecer, ou recomendar-lhes que pelo menos deixem constância por escrito das razões e condições da inopinada saída do general a caminho de Portugal. Seria uma forma de honrar a memória deste. Do lado de Salazar, creio que nenhum dos previsíveis responsáveis ainda esteja vivo. Ao menos ficaram a conhecer-se os nomes dos agentes que alvejaram Delgado a poucos quilómetros da fronteira. Mas permaneceu por precisar quem lhes tenha dado ordens nesse sentido, evitando o regresso mesmo como prisioneiro para ser sumariamente julgado. Conheci Delgado, ainda eu era estudante, ao vir de Washington visitar um amigo que nos convidara para o almoço. Impressionou-me vivamente a sua personalidade e transbordante simpatia. Devia-lhe incluir o escabroso cenário da sua morte no rol das perguntas de difícil resposta.

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