segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O professor que ensina Bob Dylan na Universidade de Coimbra

VISÃO         20.10.2016

Há dias, uma aluna de Stephen Wilson dizia-lhe que tem a discografia toda de Bob Dylan (pertencia ao seu pai), mas a jovem tinha dúvidas se a geração anterior entenderia o músico e poeta. E o professor Wilson, 64 anos, achando-lhe graça, respondeu que Bob Dylan gostaria que ela dissesse isso em público. Aos 75 anos, Bob Dylan está tão atualizado que os próprios jovens consideram-no mais contemporâneo do que foi no início da sua carreira.
Na manhã do passado dia 13 de outubro, quando a academia sueca anunciou o Prémio Nobel da Literatura – mal sabia a secretária permanente Sara Danius que passados oito dias ainda não teriam conseguido entrar em contacto com o laureado –, Stephen Wilson ficou agradavelmente surpreendido. Para o professor especialista em Estudos Americanos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, dar o prémio a uma pessoa pouco canónica, como Bob Dylan, é uma polémica escusada, pois o prémio tem todo o cabimento. “Se fossemos achar que só literatura pura pudesse ser ensinada, então Shakespeare, que é basicamente Teatro, também não deveria ser ensinado como literatura”, comentou Wilson com um amigo.
Stephen Wilson chegou a Portugal na década de 80 do século passado. Assistente na Universidade de Coimbra, terminaria por cá a sua tese de doutoramento sobre o poeta americano Ezra Pound. Durante muitos anos dedicou-se a ensinar literatura e cultura americana e também cultura anglo-irlandesa. A cultura americana sempre teve uma vertente forte da cultura pop e de massas, por isso é inevitável que nas suas aulas fale de cinema (com destaque para Martin Scorsese), desporto (adepto de futebol e praticante de râguebi), música e até jornalismo.
Ficou surpreendido com a escolhe deste ano para o Prémio Nobel da Literatura?
Surpreendido, mas muito satisfeito. Penso que foi uma louca e brava decisão por parte da Academia Sueca. Posso estar enganado, mas eles são mais convencionais e conservadores, e ao escolherem alguém que para muitos não faz parte do que é visto como a comunidade literária, uma popular escritor de canções como Bob Dylan, arriscaram. Conheço outras pessoas como eu, que estudam e ensinam Dylan, que já há muito tempo falavam desta possibilidade, mas sempre pensei que tal não acontecesse.
Surpreende-o que Bob Dylan não atenda o telefonema da Academia Sueca?Oh! Isso é Bob Dylan! Eventualmente, há de atender e acredito que vá à cerimónia de entrega do prémio.
Como descreveria a obra de Bob Dylan a uma criança?Por vezes, perguntam-se se gosto dele. E respondo: isso depende de qual dos Bob Dylan se refere. Ele muda constantemente. Bob é um poeta que dedicou o seu trabalho à música. Tem de se ouvir o seu trabalho, muitas vezes ele conta histórias, e temos de respeitar e reconhecer as suas canções, sempre abertas a várias interpretações. Ele é um poeta e um músico, e um não é mais importante do que o outro. Mas agora que recebeu o Prémio Nobel da Literatura o seu trabalho não ficará sozinho, pode ser posto num papel e lido, ensinem-no nas salas de aulas, escrevam sobre ele da mesma maneira que escreveriam sobre poesia.
Qual é a melhor canção para nos iniciarmos no trabalho de Bob Dylan?
Que pergunta difícil. A Academia Sueca falou do álbum Blonde on Blonde, penso que por causa de músicas como Visions of Johanna, mas eu recuaria no tempo e começava com Blowin’ in the Wind e A Hard Rain’s A-Gonna Fall [ambas de 1963]. Temos de ir a meados dos anos 60 do século passado a Mr. Tambourine ManDesolation Row, Just Like Tom Thumb’s Blues. Se tivesse de apresentar Bob Dylan seria com Subterranean Homesick Blues, do álbum Bringing It All Back Home.
Porque é que a sua poesia é tão controversa?
Porque muitas pessoas pensam que Bob Dylan não é um escritor, da mesma maneira que outros Nobel anteriores, como o português José Saramago ou o irlandês Seamus Heaney. O prémio Nobel é sempre controverso. Lembro-me quando Saramago ganhou, em 1998, terem dito que ele escrevia livros mas atacava a religião, passava demasiado tempo nas Ilhas Canárias… A literatura deve ser controversa, tem de se falar sobre ela, tem de se ficar excitado ou zangado. O prémio Nobel não é como uma medalha olímpica, é um prémio que deve fazer pensar sobre ele. Será isto literatura? Qual o futuro da literatura Mas Bob Dylan sempre foi controverso, irritando uns, excitando outros. Nos anos 60, quando passou de cantor folk para uma rock star, em algumas cidades americanas a polícia tinha medo que o matassem durante os concertos, porque ele sempre chocou as pessoas. Sempre transgrediu. Com ele nunca foi fácil.
Como são as suas aulas?
Lemos poemas e as respostas que eles provocam, ouvimos música, vemos concertos. Nas aulas da pós-graduação vemos o documentário de Martin Scorsese chamado No Direction Home.
Já teve oportunidade de conhecer Bob Dylan?
Não, já o vi inúmeras vezes ao vivo, mas ainda não o conheci e nem tenho a certeza se gostaria. Não devemos conhecer pessoas que admiramos para não nos desiludirem. Ele é uma ficção criada por Robert Allen Zimmerman, provavelmente não se consegue conhecer o próprio Bob Dylan. O filme I’m Not There é sobre alguém que o vê sozinho num restaurante, vai ao seu encontro, apresenta-se e pergunta se ele é Bob Dylan. “Não estou aí” foi a resposta.
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