sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A Madre Teresa e a política

JOSÉ MARIA C. S. ANDRÉ

Calcutá é a capital do Bengala Ocidental, um Estado da Índia dominado durante 34 anos pelo Partido Comunista, graças à liderança carismática de Jyoti Basu, chefe do Governo durante 23 anos. Nestas funções, em que conviveu longamente com a Madre Teresa e as suas freiras, o radicalismo de Jyoti Basu colapsou. Violento e duro com os adversários, rendeu-se sem luta com a Madre Teresa.  «She makes me a bad Marxist since she makes me believe in godliness» (ela faz de mim um mau marxista, porque me faz acreditar na piedade / na divindade). Para quê culpar o grande líder comunista? Quem não tem fraquezas?
Joykrishno Ghosh, secretário de Jyoti Basu desde o início, lembra as instruções que tinha, para nunca fazer a Madre Teresa esperar. Há relatos de que o Conselho de Ministros se interrompeu porque a Madre acabava de chegar.
Ronda Chervin, biógrafo da Madre Teresa, conta que ela também correspondia prontamente aos pedidos de Basu: um dia, em que ele não sabia como lidar com 400 mulheres mantidas na prisão com problemas físicos e mentais, a Madre Teresa tirou-as de lá imediatamente e começou a construir um lar para elas, num terreno cedido pelo Governo. Navin B. Chawla, outro biógrafo da Madre Teresa, refere que ela antepunha sempre as palavras «o meu amigo», antes do nome de Basu. Quando a Madre foi hospitalizada, Basu visitava-a todos os dias; quando Basu esteve doente, ela ia lá todos os dias rezar.
Basu não escondia a sua amizade pelas Irmãs Missionárias da Caridade. Quando a Madre Teresa morreu (1997), sendo ele o Primeiro-ministro do Bengala Ocidental e cabeça do Partido Comunista local, organizou um dos maiores funerais de Estado de que há memória. O realizador Rajeevnath lembra que, quando um jornal noticiou que ele estava a preparar um filme sobre a Madre Teresa, lhe telefonaram directamente do Governo a dizer que todo o Estado de Bengala o apoiava, se fizesse o filme.
Temos de reconhecer que não era simples, para um político, conviver com a Madre Teresa. Ainda ecoa por todo o mundo a sua declaração ao receber o prémio Nobel da Paz: «O aborto é hoje a maior ameaça à paz, porque se uma mãe pode matar o próprio filho, ninguém pode impedir de matar». Na homilia da canonização, o Papa Francisco lembrou o empenho incessante da Madre Teresa em defesa da vida. Hillary Clinton descreve esta posição como «absolutamente frontal: a Madre Teresa discordava dos meus pontos de vista... e disse-mo» (Mother Teresa was unerringly direct. She disagreed with my views... and told me so). Num almoço na Casa Branca, Hillary perguntou-se por que é que nenhuma mulher tinha chegado a Presidente dos Estados Unidos; conta-se que a Madre Teresa voltou à carga: «Provavelmente, porque foi abortada». Diz bem da Primeira-Dama que, depois de ouvir uma resposta destas e continuando sem compreender o mal do aborto, tenha viajado à Índia para ver como as Missionárias da Caridade acolhiam as crianças e tenha apoiado iniciativas delas nos Estados Unidos. 
O jornalista Andrea Tornielli, do «La Stampa», resume o depoimento do antigo enviado especial da ONU, Staffan de Mistura, num «Meeting di Rimini», organizado pelo movimento Comunhão e Libertação. No ano de 1986, os guerrilheiros cercavam a cidade sudanesa de Juba, de maioria cristã, impedindo a chegada de mantimentos. A população começava a morrer de fome. Os mísseis dos guerrilheiros já tinham abatido dois aviões da ONU, que transportavam comida para Juba. Nisto, aparece na capital do Sudão a Madre Teresa com a Irmã Mirtilla: «Estive ontem com o Papa João Paulo II, que ouviu a BBC e quer salvar a cidade de Juba. Eu ia para o Quénia, mas resolvi passar antes por aqui. Que posso fazer? Explique-me o problema». Tentaram explicar: «Isso é demasiado complicado, ligue-me para o Presidente do Sudão que impede a partida do avião, ou para os guerrilheiros». O Presidente está neste momento nos Estados Unidos. «Não faz mal, falamos com o Ronald. É um bom sujeito». Quem? «O Ronald Reagan e também a mulher dele. Ligue-me já para a Casa Branca».
– Boa tarde, fala do World Food Programme, no Sudão, estou aqui com a Madre Teresa que quer falar...

– Pois pois, também telefonaram para cá o Napoleão e o Júlio César... – responde o telefonista. Foi difícil convencê-lo e depois percorrer um a um os degraus da hierarquia da Casa Branca até conseguir a resposta: «o Presidente vai falar com a Madre Teresa». Reagan mexe-se e no dia seguinte um avião das Nações Unidas, carregado de comida, aterra em Juba sem ser bombardeado. Os guerrilheiros desistiram e levantaram o cerco.

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