quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Deus ou nada

JOÃO CÉSAR DAS NEVES   DN  13-10-2016
Acaba de sair a tradução portuguesa de um dos diagnósticos mais lúcidos e cortantes sobre a situação actual. Deus ou nada. Entrevista sobre a fé (Lucerna, 2016) é uma conversa entre o vaticanista francês Nicolas Diat e o cardeal guineense Robert Sarah. Arcebispo de Conacri de 1979 a 2001, foi nomeado em 2014 pelo Papa Francisco prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos e visita Portugal na próxima semana.
O primeiro quarto do livro é autobiográfico e conta a história fascinante de um rapazinho coniagui, nascido numa aldeia no planalto norte da Guiné-Conacri. Esta pequena povoação tinha uma característica peculiar, a missão dos padres espiritanos franceses. O jovem acólito decidiu entrar no seminário aos 11 anos. Durante a sua formação sacerdotal deu-se a independência do país, em 1958, caindo sob a ditadura marxista e furiosamente anti-religiosa de Sékou Touré. Por essa razão, a sua turma de colegas foi desbaratada, e só Robert se ordenou em 1969, meses antes de o arcebispo Tchidimbo de Conacri ser preso.
Dez anos mais tarde, os esforços diplomáticos do Vaticano para libertar o prelado, repetidamente torturado na prisão, implicavam a nomeação de um sucessor e o escolhido foi o padre Sarah, então com apenas 33 anos. Bispo mais novo do mundo em 1979, um dos primeiros nomeados por João Paulo II, coube-lhe dirigir os destinos da arquidiocese numa circunstância paralela à que o então Papa antes vivera em Cracóvia. Debaixo de Touré até 1984, depois sob a ditadura militar de Lansana Conté, a Guiné sofreu opressão e miséria económica e humana. Aí o arcebispo Sarah soube governar o povo cristão e denunciar abusos e penúria, até ser chamado a Roma em 2001. Este percurso, simultaneamente vertiginoso e heróico, gerou um grande homem de Deus, humilde, profundo, firme e perspicaz, que se revela no resto do livro, pela análise da situação actual do mundo e da Igreja.
O elemento central da sua visão é, como o nome indica, a presença de Deus: "O homem foi criado por Deus, para Deus, e Deus não se cansa de o atrair para Ele." (p. 253). Esta é a chave de leitura de toda a realidade, da sua espantosa vida pessoal como dos acontecimentos mundiais. "A Igreja não tem senão um método: a procura de Deus na oração, no conhecimento aprofundado e meditado da sua Palavra. Sem ligação pessoal com Deus, não há constância nem perspectiva" (142).
Pelo contrário, os dramas da actualidade provêm da atitude inversa: "A miséria mais profunda é a falta de Deus" (91). Num tempo que recusa Deus, Ele é substituído pelo veneno das ideologias. Sarah viveu a destruição da sua Guiné pelas doutrinas ateias, e agora reencontra no Ocidente uma versão diferente mas igualmente devastadora: "Se não sairmos da cultura de morte, a humanidade caminhará para a sua perdição. Neste início do terceiro milénio a destruição da vida já não é um acto de barbárie, mas um progresso da civilização; a lei toma o pretexto de um direito à liberdade individual para dar ao Homem a possibilidade de matar o seu próximo. O mundo poderá tornar-se um verdadeiro inferno" (192).
Os enganos surgem nos locais mais inesperados: "Lembro-me de me ter revoltado ao ouvir a fórmula publicitária de uma organização caritativa católica que não estava longe de um insulto aos pobres: "Lutemos por uma pobreza zero" (...) Aquele slogan não respeitava o Evangelho nem respeitava Cristo (...) A Igreja não deve lutar contra a pobreza, mas deve travar uma batalha contra a miséria, e designadamente a miséria material e espiritual" (166--167). "Os primeiros inimigos das pessoas homossexuais são os lobbies LGBT. É um erro grave reduzir o indivíduo aos seus comportamentos, designadamente os sexuais. A natureza acaba sempre por se vingar" (190).
Mais que na denúncia, o valor da obra está no anúncio do mistério de Deus no concreto da vida. "A oração consiste no fundo em calar-se para escutar Deus que nos fala (...) Rezar é saber-se calar durante muito tempo" (248). Este tema do silêncio é desenvolvido no seu novo livro La Force du silence (Fayard, Set 2016) que acaba de sair em França.
Vindo da Igreja africana, o cardeal Sarah é uma voz profética para o Ocidente, pois a antiga "terra de missão" é agora a "nova primavera do cristianismo" (88). Só o regresso à tradição cristã nos pode salvar da cultura hedonista, narcísica, relativista e materialista. "Sem Deus, o mundo seria um inferno permanente. Com Deus, existe a graça, que é a ternura e a carícia do Céu" (276). Por isso, a alternativa a Deus é o nada.
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